A fabulosa e detestável Cingapura
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A fabulosa e detestável Cingapura

Adriana Moreira

10 Dezembro 2013 | 03h00

Nosso contumaz viajante anda às voltas com o corre-corre habitual que o fim de ano impõe e manda avisar que em breve planeja uma visita ao Brasil. À pergunta da semana:


Prezado mr. Miles: li, na semana passada, que o senhor estava a caminho de Cingapura e aguardo sua avaliação. Dizem que o lugar é, ao mesmo tempo, fabuloso e detestável. O senhor concorda com isso? Joel Bertoni, por e-mail

Well, my friend, sou obrigado a dizer que, em minha visão de viajante, a cidade-Estado de Cingapura é mais detestável do que fabulosa. Tenho, in fact, muitos amigos por aqui. A cerimônia de casamento de meu bom amigo Lee Cheen Hean, by the way, foi o motivo de meu retorno ao pequeno arquipélago que tem a maior densidade populacional do mundo: 6.107 pessoas a cada quilômetro quadrado. Uma multidão semovente.

Ilustração: Carlinhos Müller/Estadão

Os defensores de regimes totalitários costumam me dizer que, para administrar tanta gente em tão pouco espaço é preciso, indeed, que as leis sejam draconianas e as punições, exemplares. Well: I’m sorry to say, mas não concordo com excessos de nenhum tipo. Para os que não estão entendendo esses prolegômenos (vocês ainda usam essa palavra no Brasil?) é preciso explicar que nesse minúsculo e riquíssimo país asiático ainda estão em vigor hábitos como o da chibatada (aplicada em punições leves do tipo deixar cair um papel na rua) e o das prisões sumárias, provocadas por atos que o governo considera indecentes.

Mascar chicletes em público, for instance, pode resultar em cadeia – com a agravante de chibatadas caso o chiclete caia no chão. A pornografia é totalmente proibida, o que, by the way, parece uma providência sensata. O problema é que a questão é levada ao paroxismo. Os moradores do lugar (e os viajantes, of course) são proibidos até de andar nus em suas próprias residências. Se algum vizinho voyeur flagrá-lo no dormitório nos trajes em que veio ao mundo, você vai para o xilindró que, unfortunately, funciona com abjeta precisão em um país como esse.

Confesso que fico incomodado quando estou em um lugar onde comportamentos triviais podem levar ao xadrez. Eu, talvez, me sentisse melhor se tivesse lido toda a Constituição e o Código Penal de Cingapura antes de viajar. Mas, my God, quem perderia tempo com isso?

O próprio Lee, rei dos malabares em Londres, agora me parece uma pessoa contida, sempre a olhar sobre os ombros alheios com medo de alguma coisa. However, ele garante que gosta do país, o que é justificável, já que Lee é dos raros cingapurenses legítimos que vivem por aqui. A população é, em sua maioria, composta de chineses, hindus e árabes, além de uma notável quantidade de ocidentais. Nada menos que 26 mil empresas multinacionais estão instaladas por aqui, gerando uma renda per capita de 25 mil dólares, oito vezes mais do que o índice equivalente no Brasil.

Para quem gosta de calor e de jardins – e, of course, como bom cidadão britânico, me incluo nesse grupo –, o lugar é bonito e bem cuidado. Não se pode negar, as well, que seu moderníssimo skyline é dos mais belos do mundo, sobretudo quando avistado da piscina de borda infinita localizada no 57.º andar do Marina Bay Sands, uma referência da cidade. Também come-se muito bem por aqui. A cozinha é tão variada quanto a formação da população. But take it easy: Cingapura é um dos lugares mais caros do planeta. Barato, aqui, apenas as chibatadas!

Ainda bem que Trashie continua sendo a mascote mais comportada do mundo, porque sequer posso imaginar o que ocorreria caso ela resolvesse, well, aliviar-se na calçada. Talvez a guilhotina?”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS