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A influência dos guias de excursão

Tania Valeria Gomes

13 Abril 2009 | 10h23

Nosso obstinado viajante retornou ao Condado de Essex para saudar o início da primavera. Contou-nos apenas que suas begônias já estão dando sinal de vida, mas anda preocupado com as petúnias “que estão necessitando de um pouco mais de luz e cuidado, como tudo nessa vida”.
De lá, enviou-nos a correspondência da semana:

Querido mr. Miles: sou dessas pessoas que gostam de viajar em grupos organizados e, em minha opinião, os guias turísticos fazem toda a diferença. O que o senhor acha deles?
Egle Conceição Mateus, por email

Well, my dear: concordo que os guias, comandantes de excursões turísticas, fazem toda a diferença em uma viagem. O poder que a eles é conferido, in my opinion, chega a ser atemorizador. É claro que não me refiro aos guias ciosos, que realmente conhecem seu ofício. Esses, by the way, costumam ser mestres exemplares e suas narrativas, com forte embasamento, são indispensáveis para que o viajante entenda a atração que está visitando, o contexto histórico em que ela surgiu, as vidas que ela comemora ou as mortes que pranteia. Minha amiga Covadonga, uma solerte cicerone espanhola é, in fact, uma enciclopédia viva da história ibérica.
Durante os meses em que não está no assento dianteiro do ônibus distribuindo informações de microfone em punho, dedica-se a estudar novas regiões, submete-se a exames rigorosos e amplia seus conhecimentos. Jamais aceita conduzir um grupo em lugares que não conhece a fundo, para evitar informações superficiais ou temerárias.
Unfortunately, Egle, não se pode atribuir as qualidades de Covadonga a todos os guias. Pelo que pude perceber durante minhas jornadas pelo mundo, há vários tipo de guia em ação. Os criativos são, perhaps, os mais perigosos. Eles conhecem a matéria — vê-se logo. Mas cansam-se de repetir sempre a mesma história (porque, afinal, ela não muda) e começam a adicionar cacos. É assim que, suddenly, uma catedral qualquer torna-se “a mais esplêndida obra de arquitetura gótica do século 15” e o obscuro cardeal enterrado em uma de suas criptas passa a ser “o amante secreto da Rainha Fulana de Tal, castrado e decapitado em uma emboscada atribuida a ciganos, mas que, de fato, foi ordenada pelo próprio soberano”. A viagem torna-se mais excitante, isn’t it?
Mas é tudo apenas diversão de um guia entediado.
Existem, também, os patriotas. Eu mesmo fiz um tour pela República Tcheca sob a liderança da inesquecível Nádia. Todos os números que ela passava aos incautos viajantes — o tamanho da ponte, a altura do campanário, a largura do rio, a quantidade de habitantes —, eram exatamente 30% maiores do que a realidade. Can you believe me?
Existem, também, os francamente embusteiros. São uma espécie difícil de distinguir unless you have previous information. Em geral falam muito, mas nada faz sentido. As datas estão sempre erradas. Os nomes ligados aos castelos, igrejas e fortalezas que mostram soam verossímeis, mas são completa bobagem. Quando confrontados por algum turista mais atento, sempre tem uma resposta evasiva na ponta da língua. They are really dangerous!
É por essa razão, darling, que eu chego a ser cansativo ao sugerir que jamais se deve viajar sem literatura confiável ao seu lado. Melhor ainda é quando o viajante estuda antes o destino para o qual se encaminha. Se o guia for ruim, você estará protegida. Se for bom, however, sempre haverá algo mais a aprender com ele. Do you know what I mean?