A um passo de Santiago
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A um passo de Santiago

Felipe Mortara

20 Outubro 2015 | 19h44

Jornalistas Felipe Mortara (à esq.) e Filipe Araujo durante o Caminho de Santiago

Não parece que foi ontem que partimos da França. Parece ter sido há uma eternidade. O tempo e as sensações se misturam e dão a esta vivência uma intensidade inédita. E, pela dificuldade de compreender a complexidade da experiência pela qual passamos é que não tenho a sensação de que chegaremos amanhã a Santiago. Simplesmente caminhei os últimos dois dias sem aceitar esse fim.

Os últimos 120 quilômetros do Caminho de Santiago conseguem reunir alívio e tristeza na mesma dor e no mesmo sorriso. O alívio é o mais irracional dos sentimentos, pois será em breve sufocado pela saudade. A dor física dará lugar ao peito metafórico que sofre. E a tristeza começa ao pensar na rotina de ficar sem o Caminho como rotina, como máquina que fazer pensar, usina de transformação.

Leia mais: a história do Caminho de Santiago


De Sarria em diante, a cara do Caminho mudou. Os peregrinos se transformaram em turistas que lotam acostamentos, trilhas estreitas e pequenos bares e inúmeros comércios. Um leitor disse tratar-se de um “passeio na Disney”. E ontem tive certeza, ao avistar um caminhante com uma capa amarela com o Mickey impresso nas costas. Até peregrino de guarda-chuva tinha. Na verdade, foi o dia mais vazio, pois com chuva ao longo de horas, “turisgrino” (mistura de turista e peregrino) não sai do hotel – ou vai de ônibus até a próxima cidade. Hoje percebi que é melhor aceitar – e o dia foi bem mais leve.

É estranho sentir que essa pedras e cascalhos, árvores com folhas a cair e setas amarelas pintadas em paredes descascadas me pertençam mais do que ao meu companheiro de caminhada que não andou 20% do que eu andei, mas será tão peregrino quanto eu ao fim da jornada. (Explica-se: para ganhar a compostela, o certificado do peregrino, é preciso caminhar no mínimo 100 quilômetros.)

Devem ser sintomas de saudade do Caminho. Seus últimos dias têm bosques belíssimos, pastos com flores e lojas e mais lojas oferecendo carimbos na credencial do peregrino. O turista quer voltar pra casa com seu diploma de peregrino. Enquanto o peregrino de verdade só quer que o Caminho nunca se acabe.

Leia mais: tudo sobre o Caminho de Santiago

Cada passo devolve em troca paisagens, sabores, conversas e histórias únicas. A condensação delas é que fazem o Caminho ser o que é. Diferente, impactante e transformador para cada um. Estar na pequena O Pedrouzo, a apenas 20 quilômetros da Catedral de Santiago de Compostela, ajuda a redefinir o comprimento de 20 quilômetros e a consolidar a ideia de entrega e dedicação, dissolvida por vários dias. Não pensei diariamente em Santiago nem em chegar logo a cada vez que avistava concha ou seta amarela. Era apenas uma direção.

Caminho de Santiago: a jornada
Filipe Araujo/Estadão
Chegada

Vista da cidade de Santiago de Compostela com a Catedral ao fundo: ali estaria enterrado o apóstolo Tiago

Ao longo destes 28 dias caminhando por 800 quilômetros, pudemos perceber o quanto a mente pode esvaziar e encher durante um processo de imersão física, espiritual, religiosa e histórica. O ritmo de cada um e a forma de perceber o caminho é distinta para cada peregrino, por isso novos grupos se formam e se firmam o tempo todo. Por isso, Filipe (fotógrafo e videomaker que me acompanha) e eu andamos alguns dias separados, numa boa. Coisas que ocorrem naturalmente com muitos peregrinos, assim como pegar um ônibus em alguns trechos, como fiz entre os 4o quilômetros de León a Astorga. Vivemos a experiência peregrina com suas variáveis naturais. E isso nos orgulha.

O que o Caminho traz de aprendizado e sofrimento já existe naturalmente quando se propõe alguém a peregrinar. Não é necessário impor-se mais flagelos do que os que já vêm com o percurso. Se usar um calçado mais confortável, carregar menos peso, despachar a mochila ou pegar ônibus em um trecho em que não esteja se sentindo bem, tudo bem. Você não é menos peregrino do que ninguém. A questão é a entrega, a dedicação, tentar cumprir o percurso e não partir apenas atrás da Compostela para enquadrar e pendurar na parede. Assim chegamos ao último dia, caminhando juntos, com previsão de dia lindo e uma saudade que já brotou. Não conte a ninguém, mas estou cogitando olhar as setas amarelas amanhã, rumar ao lado oposto. E evitar chegar a Santiago. Difícil aceitar o fim do Caminho.

Acompanhe a chegada dos jornalistas ao vivo, nesta quarta (21), a partir das 14 horas, acessando este link: www.estadao.com.br/e/periscopecaminho