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A viajante perpétua

Tania Valeria Gomes

23 Setembro 2009 | 11h24

Ainda em Gudvangen, na Noruega, “com uma awful ressaca de aquavit” resultante da festa de casamento a que foi apadrinhar, nosso viajante envia-nos, aparentemente, uma correspondência previamente respondida.

Mr. Miles: você conhece alguma pessoa que viaje mais que o senhor?
Tércio Moreira Lino, por email

Well, my dear, não tenho dúvidas de que, thank God, existem inúmeros cidadãos de diversas nacionalidades que pratiquem um hobby igual ao meu. Modestamente posso citar, inclusive, alguns admiradores que, inspirados pela vida que levo, decidiram abandonar seus afazeres cotidianos e partiram mundo afora, com mais ou menos regularidade. Existem, segundo me consta, algumas associações de viajantes que me escolheram como patrono e, com alguns de seus membros troco eventual correspondência quando, seldom, nossas missivas se alcançam.
Nem todos, however, são levados pelo simples desejo de visitar novos lugares e encontrar novas pessoas. Navegadores solitários ou casais embarcados — há milhares deles nos intermináveis mares de nosso planeta —, são, of course, destemidos viajantes. However, quase todos os que conhecí não alimentam qualquer interesse pelo encontro. Bem ao contrário, cultivam hábitos de eremitas. Seu prazer está no encontro — e, sometimes no confronto — com as forças da natureza. Os portos servem-lhes, apenas, de armazéns. Sua paz está nas longínquas baias desoladas, onde podem fundear o prazer de sua solidão.
Também não viajam da maneira que me agrada os colecionadores de destinos, aqueles estranhos tipos que sempre rumam para espaços vagos de seus mapas perpassados por marcadores e consideram a waste of time retornar a uma cidade, por mais impacto que ela tenha lhes causado. However, my friend, também eles são viajantes, também eles fazem as malas, deixam sua vida e partem pelo mundo — embora sempre retornem para exibir suas conquistas, reinvindicar diplomas e publicar estatísticas.
Entre os viajantes profissionais — marujos, comandantes, certos tipos de mercadores e diplomatas —, é no meio desses últimos que costumo encontrar os que desenvolvem maior apreço pela diversidade, em minha modesta opinião o sêlo de distinção de um viajante qualificado. Talvez por dever de ofício, quiçá pela extensão de sua permanência, muitos embaixadores e consules tornam-se verdadeiros cidadãos do mundo.
Não conheço, yet, ninguém que viaja há mais tempo, sem parar, do que uma velha conhecida, mrs. Fremont, de Hartford, Connecticut. A simpática e riquíssima senhora embarcou em um transatlântico na primavera de 1964, meses após o passamento de seu marido e já ciente de que os dois filhos só teriam a decência de procurá-la, uma vez por ano, no Thanksgiving Day. Pois, believe me, fellow: mrs. Fremont resolveu morar no navio. Há quarenta e cinco anos, ela ocupa a mesma cabine da mesma embarcação e viaja ao redor do mundo, porto por porto. Quase sempre tratada como uma Rainha — embora, sometimes, o turn over da tripulação a incomode —, mrs. Fremont transformou sua vida em uma viagem. Consta que, nas duas vezes em que o navio foi recolhido em doca seca para remodelações, a viajante perpétua aproveitou para tirar férias. Guess where? Em outros navios de cruzeiro, of course.