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A visita e a reforma

Tania Valeria Gomes

06 Janeiro 2009 | 18h11

Well, my friends, foi very amusing ler, no próprio Estadão, a especulação que vocês fizeram sobre minha vinda ao Brasil. In fact, here I am — conforme prometido, aliás. Ví a coluna no exemplar que recebi a bordo de meu vôo e, embora fosse minha intenção visitá-los na redação, decidi não fazê-lo, em protesto contra a ilustração publicada, que me apresenta em um traje inadequado, uma espécie de summer, que, vocês hão de concordar, não dignifica minha história. Anyway, a felicidade de retornar ao país onde me diverti com Cecilia (N.da R: Cecilia Meirelles, a poetisa), Guiomar (N.da R.: Guiomar Novaes, a pianista), Leila (N. da R.: Leila Diniz, a musa) e Guimarães (N.da R.: Guimarães Rosa, o escritor), among others, é insuperável.
Só estou um pouco atrapalhado com essa nova e incompreensível reforma ortográfica. Asseguro-lhes, aliás, que um sobrevoo sobre o Rio de Janeiro é muito menos poético do que o bom e velho sobrevôo, que já vinha com a gaivota batendo asas sobre o próprio termo. Confesso, fellows, que não entendo essa fissura por mudanças, que atrapalham principalmente a estrangeiros como eu. Levei quase três décadas para habituar-me à realidade de que já não havia mais pharmácias, nem se estudava chimica nos países de língua portuguesa.
Agora presencio, entre orgulhoso e aterrorizado, a reinclusão, em vosso alfabeto de letras outrora procrastinadas, como o y, o w e o k, sem as quais Shakespeare teria sido, no máximo, um serviçal de estrebaria.
Não é de minha conta, of course. Entretanto, como um humilde observador do que se escreve nos jornais e revistas do Brasil há algumas décadas, parece-me que, muito mais pertinente do que a reforma ortográfica seria a recuperação do vernáculo. Ano após ano, verifico, entristecido, uma significativa redução na quantidade e na qualidade das palavras utilizadas na comunicação entre escribas e leitores. O resultado é clareza, of course; mas, sobretudo, negligência com o idioma, cujas belezas vão se recolhendo, indefesas, às páginas empoeiradas dos léxicos, como peças de automóveis fora de linha.”
A presença de nosso excêntrico viajante em terras brasileiras já foi relatada por diversos leitores. Quase todos, infelizmente, estão enganados. Não: mr. Miles não pode ter sido visto em Manaus, nem em Palmas, Maceió, Salvador, Botucatu, Bagé ou Crato. Conforme anunciado, o corrrespondente britânico deste caderno foi mesmo a Florianópolis, onde, segundo nos contou, aceitou a cordial hospitalidade de seu velho amigo Tolstoi, engenheiro encarregado de recuperar a belíssima Ponte Hercílio Luz que, há anos, está estruturalmente abalada. Mr. Miles, aliás, garante que tais problemas não teriam ocorrido se a construção original tivesse sido deixado a cargo dos ingleses, ao invés dos americanos. Tolstoi e seus irmãos Yamma Maiura, Maiovitch e Netovitch — “um divertido grupo de doces incendiários paraibanos” — estiveram juntos durante a passagem do ano, na companhia, também, de outro good fellow de mr. Miles, “o green doctor Eduardo Jorge, que não bastasse estar tentando fazer de São Paulo uma cidade tão repleta de belos parques como London, ainda carrega o nome de nossos dois últimos e saudosos reis.” Na próxima semana, devemos ter novas noticias sobre a passagem de mr. Miles por Floripa. Para os que perguntaram sobre o que a ONU reservou para 2009, nosso correspondente manifesta-se otimista.
” O ano oficial das batatas, as you know, virou um purê. Por isso, my friends, as Nações Unidas, de forma sempre astuta e cautelosa, já declarou 2009 como o Ano Internacional das Fibras Naturais. E dos Gorilas, as well. “