Aryane veste Prada ou o dia em que meu avatar de luxo enlouqueceu
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Aryane veste Prada ou o dia em que meu avatar de luxo enlouqueceu

Felipe Mortara

24 Maio 2013 | 22h42

Loja da Prada: sinônimo de tentação feminina? Foto: Bobby Yip/Reuters

Aryane Cararo

Em primeiro lugar, é bom avisar: eu não sou uma pessoa da moda. Também não crio encrenca. O negócio é que, 1, não acompanho o suficiente para me chamar de entendida e, 2, não tenho dinheiro para as coisas bacanas que vejo. A verdade é que nunca tive ganas de vestir marca – e achava até uma besteira gastar um dinheirão que poderia ter sido melhor empregado em uma viagem. Mas o fato é que o meio, o meio, meus caros, ele endiabra o corpo. E eu estava em Milão.


O hotel era, bem, do tipo que tem moço de quepe na entrada com luvinhas brancas para abrir a porta para você. E tinha afrescos, originais do século 15. Ficava no Quadrilátero de Ouro, a poucos passos  de uma Yves Saint-Laurent. E havia as colegas, essas, sim, bem entendidas das grifes. Essas, sim, boas investidoras nas bolsas e ações de andar com elegância. Essas, sim, consumidoras que sabem como aproveitar um outlet. Sim, eu lembrei tarde do “diga-me com quem andas…”. Não que eu seja assim uma maria-gasta-com-as-outras. Estou bem mais para uma maria-não-resistiu-às-tentações.

Mas demorou, vou logo adiantando para contar pontos na avaliação final do leitor.

A primeira parada foi na Armani Megastore. Achei que poderia sair dali com as flores, se é que quisesse comprar algo. Só que não. Já estava escurecendo quando o grupo de mulheres seguiu para a 10 Corso Como. Lojinha simpática, moderninha, escondida. Cariiiinha… O site até tem preços possíveis. Mas, andando ali no setor de roupas, não toquei em nada na casa das centenas de euros. Me senti um pouco Midas. Casaquinho por 2 mil. Vestidinho por 3. Vestidão por 5. E eu lá procurando, num jogo de curiosidade não-afetada, pela etiqueta mais cara só para poder dizer com os olhos bem arregalados: “Você viu quanto custa este vestido?”

Alexander McQueen era apenas o cara sobre quem eu tinha editado um texto obituário e Stella McCartney ainda era somente a filha do Paul. Sim, eu sabia exatamente quem eram os dois, mas eles me interessavam, até então, só naquela medida. Confesso que não me atrevi a desbravar a seção de utilidades domésticas –  muito mais acessível, me contou depois uma colega que dá até orgulho: ela andou em Milão e Milão não andou nela (voltou sem extravagâncias). Mas tive a boa sorte de ter conferido a livraria naquele espaço que ainda tem galeria de arte. Comprei um inocente e incrivelmente hábil livro pop-up infantil. Ah, 20 euros é mole pra essa maravilha! Dispensei a sacola. “Por que você não pegou a sacola???”, ouvi. Desculpa, eu achei que o nome da loja estampado por aí não seria assim tão importante. Foi o primeiro dia no deserto de moda e design.

O grau de tentação aumentaria, claro. Tentação que não aumenta não é tentação. No dia seguinte, tínhamos um passeio com uma personal shopper. Ok, ela só vai nos mostrar lugares muito caros, pensei. Eram. Até eu me deparar com aquele pretinho básico, mas bem recortado e diferente, no ateliê do milanês Federico Sangalli, que já havia participado de algumas semanas da moda de Milão. 180 euros. Meu cartão podia pagar, claro. As outras mulheres do grupo estavam provando as roupas. E a mão coçou fortemente. “Não”, eu neguei pela segunda vez. Não precisava.

Então, chegou o dia de deixar Milão e eu quase comemorei secretamente que havia resistido à luxúria provocativa daquela cidade de lindas vitrines e pessoas bem-vestidas. Eu ia para Florença, a capital das artes. Não haveria mais perigo. E, antes que o galo pudesse cantar mais um dia, eu caí em tentação. Fomos ao The Mall, um outlet pertinho de Florença com poucas lojas, mas todas luxuosas. Do lado, a poucos passos, ficava o outlet da Prada. Entrei por curiosidade. Ganhei uma senha na entrada, prática comum porque a loja costuma encher. Mas não eram curiosos como eu, eram consumidores malucos, carregados de bolsas. Fui ver de perto as bolsas. Eram bonitas, especialmente as da Miu Miu, moda jovem da Prada. Só que me pareceram demasiado caras – de 330 a 590 euros. Queria e precisava de uma bolsa, era fato. Não com esse preço. Dei uma volta pelas outras pouco mais de 20 lojas. Eram mais caras. Foi na comparação que Prada começou a me cheirar um bom negócio.

E, comparando uma Ferrari com uma Lamborghini, acabei achando a vermelhinha barata. Porsche, então, virou pechincha. Sim, são essas peças que a matemática da cabeça de uma mulher que está consumidora (mesmo que não seja todos os dias) prega. Voltei à Prada. E lá estavam as companheiras e companheiros de viagem. Todo mundo escolhendo seu exemplar.

E a vontade, como é que fica? Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters

E, ainda indecisa, comecei a escutar das companhias: “Você trabalha tanto, pode se dar esse presente”, “Uma bolsa dessas dura a vida inteira”, “Você não vai achar preço assim”. Havia ali implícitas as palavras liquidação, presente e companhia pra vida toda – pelo menos para diluir as parcelas de culpa ao longo da durabilidade da bolsa. Mas confesso que nada foi tão decisivo como ouvir de uma delas, chiquérrima, que “Você pode estar mal vestida; mas é só colocar a bolsa que fica, ó, elegante, está ótima para ir a qualquer lugar”. Não precisei de mais expressões de incentivo. Havia escolhido a minha bolsa preta. 590 euros.

Justo eu, que nunca tinha tido uma bolsa que custasse mais do que R$ 160. E, como já havia enlouquecido o meu avatar-consumidora-de-luxo, decidi passar na seção de sapatos e aproveitar aquela felicidade de criança que ganha bicicleta de Natal. Fiquei só na parte dos preços especiais, confesso. Mas saí de lá com dois pares-mulher-poderosa: um de 100 e outro de 75 euros. Ah, Emily, vá dizer que pelo menos esse não foi um bom negócio? E, não, não me arrependi de ter comprado a bolsa.