Um tour pelo universo literário de García Márquez
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Um tour pelo universo literário de García Márquez

Fabio Vendrame

21 Janeiro 2014 | 04h40

CARTAGENA


Nunca gostei da ideia de pendurar um audioguia no pescoço e escutar gravações sobre a história de um museu ou de uma determinada atração. Julgava se tratar de uma bobagem que eliminava o importante trabalho de um guia de carne e osso. Porém, meio por culpa de Cartagena, e muito por culpa de García Márquez, o preconceito ruiu.

O tour eletrônico da Tierra Magna (tierramagna.com), produzido em parceria com a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, definitivamente não é barato (48 mil pesos colombianos ou R$ 56 por 4 horas). Mas, ao percorrer 35 pontos que fazem parte da biografia e do imaginário do autor, faz valer cada centavo. Compreenda as inspirações de Gabo munido de um mapa caprichado e deixe-se embalar por trilhas sonoras bem elaboradas, além de leituras intensas dos principais trechos de suas obras. Aqui, alguns pontos-chave:

Porta do Relógio – Foi neste lugar que García Márquez ouviu falar de um certo coronel José Manuel Buendía, que vivia na região de Turbaco e que, em 1947, destoou na multidão. Durante discurso do candidato à presidência Jorge Eliécer Gaitán, teria surgido um homem de bigodes com uma bandeira vermelha no lombo de um burro contando causos da Guerra dos Mil Dias (1899-1902). Dizia ele que, após ser ferido a bala, havia se curado nas águas do Rio Madalena (o maior do país) e que, desde então, se tornara imortal. Assim nasceu a história do clã Buendía, protagonista de Cem Anos de Solidão, de 1967, a mais célebre obra do autor. Um pouco mais adiante, ao lado da Estátua Noli Me Tangere, ou “não me toque”, Gabo viveu um momento decisivo em sua vida. Seu pai, que queria o filho advogado, e não jornalista, disse, furioso: “Comerás papel!”. Assim, García Márquez se decidiu definitivamente pelo jornalismo.

Porta do Relógio, onde Gabo ouviu falar de um certo coronel Buendía – Foto: Felipe Mortara/Estadão

Calle San Juan de Dios – Foi no número 3-81 que o jovem repórter García Márquez arrumou seu primeiro trabalho, em 1948: ali funcionava o jornal El Universal. Apesar de não receber salário, teve a oportunidade de aprender muito com o editor Clemente Saballa, que o deixava dormir sobre as bobinas de papel na gráfica. Na frente do diário está até hoje o Convento de San Pedro Claver, de onde partiram as mais rudes tentativas de censura. Bem mais tarde e já laureado com o Nobel, Gabo comprou dois andares de um prédio na mesma rua, e ali funciona até hoje a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, gerenciada por seu irmão Jaime.

Catedral de Cartagena – A mais importante entre as 44 igrejas de Cartagena atua quase como protagonista em O Amor nos Tempos do Cólera. Ali, o personagem Florentino Ariza vê pela primeira vez sua musa, Fermina Daza, grávida de 6 meses, e decide fazer nome e fortuna para estar à altura de conquistá-la. Até que lhe entrega furtivamente a primeira carta de amor durante a missa de Natal. É ainda onde Fermina se casa com Juvenal Urbino, cujo funeral também ocorre ali. Na lateral, na Plaza de la Proclamación, Fermina foi coroada deusa na ficção. Na vida real, um inglês foi queimado vivo ali durante a Inquisição. Gabo retrata uma Cartagena que nunca foi feliz ou alegre, mas escravista e cruel.

Portal de los Mercaderes – Aqui tem início a novela Do Amor e Outros Demônios, quando a protagonista Sierva María de Todos los Ángeles é mordida por um cão raivoso e passa a ser possuída pelo diabo. Na época em que a história se passa, há mais de 200 anos, funcionava neste ponto um mercado de escravos, com pretendentes dando lances por lotes de negros vindos da África. Hoje, docerias e lojas de souvenir dividem as arcadas em tons laranjas e amarelados.

Convento de Santa Clara – Num dos mais suntuosos edifícios de Cartagena hoje funciona o Hotel Sofitel Santa Clara (sofitel.com). Ao cobrir para o jornal a retirada de uma das criptas funerárias dali, em 1949, Gabo se inspirou para escrever Do Amor e Outros Demônios. Entre o pátio interno e os imensos corredores, o padre Cayetano Delaura se apaixona pela jovem Sierva María de Todos los Ángeles, a quem deveria exorcizar. O hotel fica bem ao lado da casa onde o escritor passa alguns meses todos os anos. / F.M.