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Bem vinda deselegância

Tania Valeria Gomes

24 Dezembro 2008 | 11h53

Como sempre acontece nesta época do ano, leitores de todas as partes do Brasil escrevem para nosso viajante britânico questionando do que vale uma vida itinerante se um homem não tem familia para compartilhar o Natal. Mr. Miles agradece a “preocupação” de seus admiradores e volta a lembrar que, “além das tias, primas e primos com os quais, by the way, não compartilha uma ceia de Natal há muitas décadas em função da má performance dos cozinheiros disponíveis”, sua familia espalha-se generosamente pelo mundo e, eventualmente, nem compartilha da fé cristã. “Dividir uma mesa com pessoas queridas é muito melhor do que qualquer motivo para fazê-lo”, assegura nosso correspondente que, neste Natal, estará junto a familia Jakac, em Ljubiana, na Eslovênia. Edvard Jakac, antigo mordomo de Tito, é hoje o concierge de um hotel renomado e ” of course, faz parte da familia Miles nos Balcãs”.
A seguir, a pergunta da semana:

Querido mr. Miles: toda vez que viajo, opto por uma bagagem leve e prática. O resultado é que, na prática, acabo ficando cada dia mais desarrumada, parecendo com o Augustinho, de A Grande Familia. O que o senhor acha sobre isso?
Valquíria Rosangela Carneiro, por email

Well, my dear: não é preciso ser um observador muito arguto para descobrir que, em viagens de férias, a primeira vítima é, quase sempre, a elegância. Never mind: a utilização de roupas amarfanhadas, de cores destoantes, em situações inconvenientes é característica de turistas de múltiplas nacionalidades em diversas partes do mundo. A falta, nesse caso, é quase sempre compreensível e justificável. Mais vale um viajante com poucas peças de roupa em uma bagagem praticável do que um turista condenado a transportar baús de uma cidade a outra, sem o auxílio dos serviçais de outrora.
Roupas contadas, usually, significam combinações esdrúxulas. Tenho visto, here and there, alguns modelitos tão improváveis que só me resta esperar que a viagem realizada tenha sido muito mais rica e proveitosa do que as fotos que dela restarão. No extremo oposto, conheço algumas amigas que viajam com tanta bagagem que, in fact, muito pouco lhes importa o lugar em que estão. A preocupação que têm de estar sempre bem na foto é, often, muito maior, do que o interesse em saber ‘o que é este prédio todo quebrado atrás de mim?’ – referindo-se, claro, ao Coliseu ou ao Parthenon.
Há, by the way, pessoas naturalmente elegantes, que sabem misturar a boa prática do light traveling com uma inigualável habilidade de compor a bagagem com itens precisos que, sempre que chamados ao corpo, resultarão em aparência adequada e repleta de frescor. Essas, I’m sorry to say, são uma minoria que, seguramente, passará ao largo dessas mal traçadas linhas.
Nesse particular, by the way, tem razão minha boa amiga Charlotte (N.da R.: Charlotte Rampling, atriz inglesa), ao invejar as mulheres muçulmanas que com quatro ou cinco boas burkas podem dar a volta ao mundo sem qualquer risco de parecerem deselegantes. O mesmo, of course, se aplica aa freiras, a monges tibetanos e, last, but not least, a esse modesto escriba, que, adepto do terno e do bowler hat corre o risco de aparecer antiquado. Jamais, porém, esquisito. Do you know what I mean?