Ceará: litoral na cadência da brisa
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Ceará: litoral na cadência da brisa

Fabio Vendrame

25 Março 2014 | 02h30

Ventos esculpem as paisagens de vilas e praias a cerca de 200 quilômetros de Fortaleza, onde cenas lúdicas se repetem todos os dias ao sabor da maré e de deliciosos pescados frescos levados à mesa

Sobrevoe Canoa Quebrada de parapente – Foto: Fábio Motta/Estadão

Antonio Pita / ARACATI

Há poesia nos grandes cataventos que margeiam a vista no alto da Duna do Pôr do Sol. Inspiração para renovar-se com a força dos bons ventos cearenses. Os ciclos que se cumprem ao seu tempo, um convite à cadência própria daquele trecho do litoral brasileiro. Aquela montanha de areia é referência ali, mas Canoa Quebrada, a 180 quilômetros de Fortaleza, é repleta de opções para quem se permite viver uma experiência além de suas famosas dunas.


Há o sabor do marisco do Rio Jaguaribe, o maior do Ceará; a mistura das águas doces e salgadas; o pé mergulhado no mangue; os cactos áridos à beira-mar. No radar de 40 quilômetros, outras cidades e vilas, como Fortim e Ponta Grossa, guardam suspiros aos viajantes. Mas há também Retirinho e Pontal do Maceió – e esticando ainda mais você terá praias como a das Fontes e Morro Branco, de paisagens exuberantes, entre lagoas, rios e mar.

A escolha varia com o bolso, como sempre. Há resort e pousadas rústicas na maioria das vilas.

Algumas ainda correm para melhorar a infraestrutura, é verdade. Mas quem busca sossego genuíno para recarregar as energias vai se encantar com as praças e suas sombras agradáveis para leitura, as rodas de conversa ao redor do pescado e a brisa salgada sob o guarda-sol.

Foto: Fábio Motta/Estadão

CANOA QUEBRADA
Não dá para se furtar aos clichês nos passeios de buggy e tirolesa no meio das dunas. A experiência começa do alto, com o voo de parapente que fica na principal praia de Canoa. Por R$ 80, o passeio de 15 minutos, acompanhado, oferece um visual deslumbrante das falésias coloridas em tons de vermelho e as mil nuances de azul do mar e do céu.
Pela terra, os trajetos podem ser feitos de buggy, com preços entre R$ 130 e R$ 300 por pessoa, a depender do destino e da extensão. Mas convém não abusar, ou as dores de coluna poderão diminuir a animação para a noite. Os passeios costumam prever paradas em altas dunas e nas piscinas naturais a 2 quilômetros da vila, e ainda banhos em lagoas naturais que têm, nas margens, bares isolados no areal.

Por ali há opções emocionantes como esquibunda (um tipo de sandboard sentado; R$ 4) e tirolesa (R$ 8), que têm entre 30 e 80 metros. Vale a pena conferir as poses e caretas registradas por fotógrafos espalhados entre as dunas. O banho de lagoa, ao final da aventura, recupera o fôlego para seguir nos solavancos do carro até o mirante do pôr do sol.

Para a gastronomia, esqueça as grandes barracas, que têm seus dias contados nas areias, e mesmo os restaurantes da Broadway, principal rua de Canoa. Bom mesmo é a comida nativa.

A Vila dos Estevãos, o primeiro ponto de povoamento da região, hoje é uma área de preservação histórica e cultural, longe da especulação imobiliária. O restaurante O Nain (88-8812-7571) serve peixes da região a preços entre R$ 22 e R$ 40 para duas pessoas. O camarão é protagonista. “Vir aqui e não experimentar nossa comida típica é perder a viagem”, diz o proprietário, Nain, conhecido em toda a vila.

À noite, as tribos se cruzam na Broadway, a rua de estilo rústico em que se concentram restaurantes, lojas de souvenir e bares. A Caverna é o ponto de encontro de quem quer ouvir música e beber cerveja observando a convivência fortuita entre estrangeiros, nativos e turistas.

Pontal da Barra – Foto: Fábio Motta/Estadão

FORTIM
Uma pausa no mar e um mergulho no rio. Fortim, cidade a cerca de 40 quilômetros de Canoa Quebrada, oferece ao visitante o privilégio do encontro do Rio Jaguaribe, o maior do Ceará, com o mar, margeado por áreas de mangue. A base para apreciar a mistura das águas é conhecida como Canto da Barra.

Dali sai o barco que navega o leito do rio, às margens das mansões e seus píeres particulares. O passeio custa R$ 20 por pessoa, com horários variáveis a depender do fluxo de passageiros e da maré. São duas horas observando de outro ponto de vista as dunas de areia, ao fundo, e a vegetação retorcida característica do mangue.

O ponto alto do passeio é o Canal do Amor, onde se pode ouvir um pouco das lendas e da história da vila, fundada em 1603. “Contam os antigos que ali se encontravam um índio de uma tribo próxima e uma moça branca, filha de um coronel da cidade. Todo mundo tem uma história ali”, diz um pescador, pronto a lançar sua rede ao mar.

O conflitante encontro entre dois mundos, entretanto, não impediu que brancos e índios se unissem para expulsar inimigos comuns, os franceses, que tentavam se apossar do Forte de São Lourenço, inspiração ao nome da cidade.
No rio também é possível sentar à sombra de um saveiro para coletar sururus e outros mariscos, como fazem as marisqueiras há mais de 140 anos. Depois de conversas e risadas com as senhoras do local, é só levar a pesca para o restaurante Paraíso (peixe frito a R$ 35), logo ali, no encontro entre rio e mar.

A cidade ainda reserva ao visitante as paisagens do Pontal de Maceió, trilhas ecológicas em Cachoeirinho e um oásis de conforto e sofisticação para descansar da maratona de sol e brisa. O Hotel Vila Selvagem, na Praia das Agulhas, oferece serviços de spa, chalés e um sossego difícil de mensurar. As diárias ficam entre R$ 380 e R$ 850. A região é indicada para a prática de kite surfe e passeios de jangada.

Há ainda os passeios nas áreas de mangue, nas margens do Rio Jaguaribe, ou ainda uma caminhada pelas ruas de paralelepípedo da cidade, com suas casas simples e coloniais, suas praças e igrejas que preservam um charme e uma sofisticação rústicas.

Garganta do Diabo – Foto: Fábio Motta/Estadão

PONTA GROSSA
Seguindo pelo leste, tem-se uma sucessão de vilas e pequenas cidades conhecidas quase que exclusivamente pelos locais, mas com paisagens igualmente surpreendentes. Seguimos por Majorlandia, Quixaba e Retirinho, praias com pousadas e restaurantes mais em conta a apenas 20 quilômetros de Canoa Quebrada.

Ali encontramos artesãos das garrafas de areia colorida, comuns em todo o litoral cearense. Há falésias de tirar o fôlego, como a Garganta do Diabo, onde uma nascente de água doce brota entre os bancos de areia. Passamos entre ruínas de um antigo resort de luxo com ares de cidade abandonada.

No horizonte, pescadores e suas jangadas, seus filhos brincando livremente nas piscinas naturais. Não é raro cruzar com bodes. As vilas são remanescentes de comunidades quilombolas e trazem vestígios da história dos escravos das fazendas de açúcar da região nos tempos coloniais.

“As pessoas aqui são simples, ninguém tem olho grande. Quem mais cresce no mundo são os chineses, e os olhos dele são bem apertadinhos”, resume Luis, vendedor de água de coco e refrigerante no meio das piscinas naturais de Retirinho.

O destaque na região é a praia de Ponta Grossa, já no município de Icapuí. De buggy, pela praia e em maré baixa, são cerca de 40 quilômetros, ou duas horas contando as paradas para fotos e banhos de mar ao longo do percurso. Para chegar lá, passamos por áreas de arrecifes, areias movediças e mais falésias com um impressionante degradê de tons avermelhados.

Ao fim do percurso, uma duna de mais de 50 metros, piscinas naturais, águas transparentes e uma vista panorâmica do litoral. Após a jornada, nada melhor que uma parada para almoço na beira da lagoa, em área de mangue. O restaurante O Sidrack, escondido entre a vegetação, oferece redes penduradas em coqueiros para o descanso dos visitantes após o almoço caprichado de lagostas e ostras (entre R$ 50 e R$ 70).

SAIBA MAIS:

  • Como ir: o trecho São Paulo–Fortaleza–São Paulo custa desde R$ 970 na Avianca, R$ 989 na Gol, R$ 1.026 na TAM e R$ 1.688 na Azul
  • De carro: de Fortaleza, siga pela CE-040 até Aracati e pegue a BR-304 até Canoa Quebrada, a 180 km da capital cearense
  • De ônibus: a São Benedito tem saídas diárias desde Fortaleza (R$ 19,30)