Chapada Diamantina: garimpo visual no Vale do Pati
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Chapada Diamantina: garimpo visual no Vale do Pati

Fabio Vendrame

18 Março 2014 | 04h00

DIAMANTE BRUTO: são ao menos 65 quilômetros de uma caminhada que chega a ser comparada à Trilha Inca. Se você consegue? A dica fundamental é contratar um guia bem preparado

Entrada da trilha no Vale do Pati – Fotos: Felipe Mortara/Estadão

Felipe Mortara / LENÇÓIS

Sentia uma estranha, porém deliciosa, exaustão após os cerca de 25 quilômetros percorridos naquele dia. De repente, a lanterna de cabeça iluminou o espelho do banheiro da casa de seu Wilson e dona Maria, e ali, por um instante, eu era um autorretrato da felicidade. Não sei bem se pelo esforço (já me encontrava quase em transe) ou se ali, naquele reflexo, me vi voltando quase 12 anos atrás, quando entrei pela primeira vez no mágico universo do Vale do Pati, coração e alma do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia.


Vídeo: mergulho nas grutas da Chapada

A cada subida e descida, a paisagem não hesita em recompensar. Em nada lembra os arredores da reserva, sob domínio da caatinga, de cactos e vegetação seca. Encravado entre os municípios de Andaraí e Guiné, o Vale do Pati combina a amplitude dos chamados gerais, campos planos e extensos, com a densa mata que acompanha os viajantes na maior parte do tempo.

Infelizmente (ou felizmente) não havia diamantes no Pati, e foi a umidade e o solo fértil que atraíram, no fim do século 19, centenas de famílias que fugiam de uma rigorosa seca. Difícil imaginar que este paraíso do ecoturismo já foi uma grande roça de café, banana, cana e laranja – lar de mais de dois mil moradores.

Gerais do Rio Preto

Se, por um lado, a criação do parque e de diversas áreas de proteção, bem como o êxodo rural, esvaziaram a área – restam apenas cerca de 50 pessoas vivendo aqui –, por outro, ajudaram o espaço a retomar sua vegetação nativa. Hoje, um tapete verde se espalha até as encostas dos paredões alaranjados de arenito que cercam o vale. Porém, a água ainda é o que atrai pessoas para este trecho privilegiado do interior da Bahia. Rios e cachoeiras não faltam em qualquer um dos percursos que escolher.

Os roteiros costumam durar de três a sete dias, sendo cinco dias um período bem recomendado para caminhar com calma e conhecer as principais atrações do vale, sem se preocupar apenas em atravessar até a cidade de Andaraí. As distâncias variam de acordo com o ponto de partida – do vilarejo do Vale do Capão são 90 quilômetros e da pequenina Guiné, cerca de 65 quilômetros. O acesso a estes dois pontos pode ser feito de carro desde Lençóis, capital informal da Chapada Diamantina. Ah, os carros ficam ali, pois no Pati só há dois meios de transporte: os pés e as mulas.

Como estamos falando de caminhadas longas, é natural que surjam dúvidas. Em geral, eis a primeira: será que eu vou conseguir? Pelo caminho conheci gente que não estava acostumada a andar, mas queria muito descobrir aquele lugar e estava empenhada na missão. “Você vê a pirambeira e pensa que não vai chegar. Mas vai, sim, se der um passo de cada vez”, diz o petroleiro carioca Felipe Garcez, de 34 anos. Sua esposa, a pesquisadora Mariana Waghabi, de 38, resume: “Seu limite é maior do que você pensa.” Pelo visto, sim.

Fazendo valer. Quem gosta de caminhar, mas não acha que tem pique para acampar, encontra aqui uma solução providencial. Longe de luxuosas, as acomodações nas casas de moradores servem como abrigo aconchegante após intensos percursos. São casinhas anexas que, de quebra, oferecem, excelentes refeições – jantar e café da manhã (o pernoite com duas refeições custa, em média, R$ 80).

Quem optar pela boa e velha barraca pode pagar cerca de R$ 15 por pessoa para acampar nos entornos das casas e usar banheiros, chuveiros (em geral, frios) e fogões. Agências em Lençóis têm pacotes a partir de R$ 230 por dia por pessoa, com tudo incluído.

Longe de ser uma novidade, a travessia do Vale do Pati é alvo do turismo desde o fim dos anos 1980. Sua beleza é tão icônica que é considerada a Trilha Inca brasileira, em referência ao célebre caminho de quatro dias que termina nas ruínas de Machu Picchu, no Peru.

Guias carregam e preparam refeições, além de indicar o caminho correto em meio a muitas bifurcações

Apesar de a história dessa região baiana ser bem mais recente que a dos povos pré-colombianos, tem um crucial ponto em comum com o caminho peruano: só deve ser feita com guia. A importância desses profissionais se mostra logo no começo da trilha, já que as bifurcações surgem aos montes, especialmente nas regiões de gerais.

Muito mais do que mostrar o caminho certo, um bom guia tem o desafio de carregar a comida e preparar refeições – é responsável pelo almoço, em geral, bem servido. Além disso, deve manter o astral e a motivação do grupo. Ou seja, é um mestre na arte da retórica quando a pergunta é: “Ainda falta muito?”.

Não bastasse isso, são exemplo prático de como o turismo transforma a região. Hoje com 42 anos, o guia Edmilson José Vieira, o Mil, conduz turistas desde os 12. Filho de mãe garimpeira, conta que muitas vezes ela trocava pequenos diamantes por comida para alimentar a família. “Sou o único dos meus irmãos que concluiu o ensino médio. E agora meu filho começará a cursar faculdade de nutrição. Devo tudo ao turismo”, diz.

VIAGEM A CONVITE DE BAHIATURSA, TURISMO DE LENÇÓIS E AZUL

SAIBA MAIS:

  • Aéreo: a Trip/Azul é a única empresa que tem frequências semanais de voos entre Salvador e Lençóis, às terças, quintas e aos domingos. Tarifas a partir de R$ 142 cada trecho
  • Ônibus: três frequências diárias de ônibus ligam Salvador a Lençóis. Passagens desde R$ 63,60 na Real Expresso
  • Melhor época: não há baixa estação na Chapada Diamantina. De novembro a fevereiro chove, enchendo as cachoeiras. Até maio os campos estão verdes. A temporada seca dura até outubro
  • Pacotes: diversas opções para trekkings no Vale do Pati
  • Site: bahia.com.br