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Chegamos a Santiago. E agora?

Felipe Mortara

22 Outubro 2015 | 15h26

Catedral de Santiago de Compostela. Foto Divulgação

Catedral de Santiago de Compostela. Foto Divulgação

Ansiedade, confusão e a tarefa de narrar, ao vivo, o derradeiro de 30 dias caminhando até Santiago de Compostela. O que se sente ao pisar na cidade após percorrer os 800 quilômetros do Caminho Francês. Que honra, que responsabilidade. Trazer muitos juntos e, ao mesmo tempo, estar vazio de si. Não entendi e acho que continuo sem entender. Haja emoções e incompreensão para digerir. Essas ruas, fachadas barrocas, pedras que sussurram histórias, peregrinos que se abraçam e gritam. Não há mais setas amarelas nem conchas a procurar. Hoje acordei com algo a menos.

Não era a já amiga dor nas juntas, os pés envoltos em meias e papetes horrorosas, a roupa amassada. Sair do Seminário Mayor, o albergue onde passei a última noite, com mochila, minha casa de sempre. Recordações de que, até ontem, estava peregrino. A missa com o botafumeiro balançando (o imenso e antigo defumador da Missa do Peregrino) pela transversal da Catedral, aquele cheiro de incenso a cicatrizar a alma. Chegar, um alívio, uma balbúrdia. Por que esse lugar emociona?

Ecoava ontem a oração dentro da imensa igreja, algo que há tempos não me comovia. Uma reflexão sobre peregrinar e transformar-se. Suave, coerente, nada catequizadora. Quase musical, gravei a partir da metade, surpreso. Como via eu o mundo antes desse mês a andar desenfreadamente?


Sigo repensando o ontem e os últimos 30 dias, o que este lugar significa para os que esperam alcançar. Para quem se envolve, quem se compromete. Cada passo, cada dor, bolha. O fim da estrada enche o peregrino de vácuo. Vou daqui para onde, volto a ser eu agora? Mas qual eu?

Confluem em Santiago os múltiplos “eus” peregrinos que vagam pelos caminhos da vida. Dentro de cada pessoa. A linguagem e sintonia própria deste caminho milenar. Quem faz e quem fez o percurso se entende no olhar. Não acreditava nisso, hoje pareço pregar – que contradição, eu. Só se entende com a panturrilha e a planta do pé a latejar, e o espírito formigando de sensações múltiplas.

Disneylândia do cobiçado espírito peregrino, Santiago pode entristecer os mais românticos com suas infinitas lojas de souvenires caprichados e padronizados. Escrevo essas linhas no celular enquanto subo os degraus da torre norte da Catedral, menos de 24 horas depois da inesquecível missa. Agora, à minha frente, os sapatos elegantes de um senhor que veste camisa branca e suéter bege. Não tenho nada a ver com ele, tenho tudo a ver. Ambos queremos conhecer o teto do edifício multicentenário, como se estivesse o céu acima do paraíso já alcançado. E ainda falta Finisterra, para onde iremos amanhã, de ônibus. Temos pouco tempo – domingo, voamos de volta a São Paulo. A vida espera.

Ah, a vista aqui de cima! Os telhados, quebra-cabeças de telhas finas sem data. O emaranhado caótico de vielas que se formou em volta da nave-mãe. A Catedral vide a Plaza del Obradoiro com a prefeitura, a reitoria da universidade e o antigo albergue de peregrinos, hoje o luxuoso Parador de Santiago. Andorinhas miúdas salpicam o céu azul, de onde fugiram todas as nuvens.

O sino badala às 17h45, a 10 metros dos meus ouvidos. Mais à frente, o Filipe Araújo, fotógrafo, videomaker e companheiro de Caminho de Santiago, filma e fotografa operários que restauram as torres. Escuto sua  conversa, trazida pelo vento. Discutem a sopa do jantar. Falam em “verdurinhas”, em alto e bom galego.

Aqui, a guia fala e eu escrevo. Desatento e presente. Lá embaixo, a cidade acontece. Retumbam as seis badaladas, quase em mim. Os turistas compram, os pombos espreitam migalhas, diante das majestosas torres da Catedral, com seus andaimes que enfeiam, mas ao mesmo tempo, restauram a construção. Chegam mais peregrinos. Seus olhares perdidos se padronizam, algo lhes foi roubado. Ganharam muito em troca, mas ainda não sabem o quê. Nem eu.