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Colosso de pedra

Aryane Cararo

21 Maio 2013 | 07h00

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(foto: Mario Viana/Estadão)

Aryane Cararo

Os pés são fortes, vigorosos. Há solidez nos dedos. Eles, que sempre pareceram fria pedra de mármore nas fotos, estão prestes a fazer o gigante sair do lugar. Há movimento potencial, aprisionado, nos pés, nas pernas bem torneadas. A sensação é de que, a qualquer segundo, o titã vai sair de sua paralisia rochosa e andar. Em seus 5,2 metros desde o chão, Davi não é apenas um dos semblantes mais perfeitos já esculpidos, ele é força pura, solidez, energia represada, vontade de movimento. Arrepia.


Há vida em cada veia que salta das mãos tão bem emolduradas, nos músculos que definem o abdome, nos tendões rijos, no franzir preocupado da testa, na contração dos lábios, revelando o momento em que está prestes a enfrentar Golias. Michelangelo Buonarroti (1475-1564) sabia disso quando retirou as camadas de pedra para revelar Davi. Era assim que o pintor e escultor que viveu entre Florença e Roma costumava ver seu ofício: as figuras estavam adormecidas nas pedras e precisavam ser libertada com seu cinzel.

Exposta na Galleria dell’Accademia (15 euros), em Florença, a estátua de Davi choca, espanta pela dimensão e riqueza de detalhes. Esculpida entre 1501 e 1504, foi planejada para ficar em frente ao duomo (catedral) de Florença, mas nunca esteve por lá. Pronta, decidiram colocá-la na Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio, onde permaneceu por 350 anos. Foi transportada à galeria em 1873 – uma réplica ficou em seu lugar, mas não emociona como a escultura original. Está ao fundo de um longo corredor, e é bom que você não se apresse para chegar ao titã. Nesse caminho, estão outras obras impressionantes de Michelangelo, como os quatro escravos, inacabados, que fariam parte do túmulo do Papa Júlio II, e a estátua de São Mateus.

Apesar de pequena, a galeria, que foi um hospital no século 14 e hoje pertence à Academia de Belas Artes de Florença (fundada em 1563 como a primeira escola europeia para ensinar técnicas de desenho, pintura e escultura), revela boas surpresas. O modelo em gesso de O Rapto das Sabinas (1582), de Jean de Boulogne (ou Giambologna), impressiona pelo vigor e movimento, e precisa ser apreciado com uma volta ao seu redor – a versão em mármore está na Loggia dei Lanzi, na Piazza della Signoria, ao lado da Uffizi . Nas paredes, há pinturas importantes da Idade Média, Renascença e começo do século 17, com trabalhos de Filippino Lippi, Pietro Perugino, Sandro Botticelli e Pacino di Bonaguida.

Mais Michelangelo: Quem quiser seguir o legado do artista, pode colocar em seu roteiro a Casa Buonarroti, imóvel que ele comprou, mas nunca morou, e hoje tem esculturas e desenhos seus, o Museu Bargello, onde está Bacco e outras três esculturas do artista, a Pietá que está no Museu dell’Opera e o singelo crucifixo na Basílica de Santo Espírito.