Conforto em um cruzeiro entre Punta Arenas e Ushuaia
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Conforto em um cruzeiro entre Punta Arenas e Ushuaia

Adriana Moreira

26 Novembro 2013 | 12h57

São dois desembarques por dia para ver de perto as belezas da região. Foto Marina Pauliquevis/Estadão

 

Marina Pauliquevis, PUNTA ARENAS

Mesmo já tendo passado das 18 horas, o sol brilhava e o céu estava totalmente azul quando os passageiros do cruzeiro Stella Australis embarcaram, no início do mês, para uma jornada em direção ao Cabo de Hornos, ponto mais ao sul das Américas. O navio pequeno, com capacidade para 210 passageiros, vai de Punta Arenas, no lado chileno, a Ushuaia, na Argentina, em quatro noites. No caminho, paradas estratégicas para observar a flora e a fauna da região, além, é claro, dos glaciares belos e eternos da Patagônia.


A viagem começa pelo Estreito de Magalhães e passa por fiordes e cadeias de montanhas nevadas da Cordilheira Darwin. Das cabines, com grandes janelas de vidro, dá para ver tudo lá fora. Mas bom mesmo é ir ao convés – mantenha as baterias do celular e da câmera carregadas, não vai faltar o que fotografar.

Lá fora faz frio, mas dentro do barco impera o conforto, sem ostentação. Os quartos são como os de um bom hotel, com a diferença de não haver TV, internet ou telefone. Ótimo para deixar as preocupações em terra.

Quarto do Stella Australis: conforto com vista. Foto Divulgação

 

As três refeições do dia são anunciadas pelo sistema de som do navio. Não tem como perder o café da manhã, às 8 horas – quem acorda mais cedo para ver o nascer do sol (antes das 6 horas), pode fazer seu desjejum mais cedo, sem problemas.

Almoço e jantar são preparados para satisfazer paladares de todo o mundo – eu tinha como companheiros de viagem, entre outros, americanos, europeus, australianos e até uma cambojana. Mas não faltam representantes da culinária chilena. Afinal, a tripulação, de 62 pessoas, se orgulha de ser toda do Chile. Pelo menos uma vez você vai comer empanada de carne como entrada e leite nevado na sobremesa. E, certamente, vai aprovar os pratos com centolla, um caranguejo gigante (e delicioso) encontrado nas águas frias da região.

O bar está sempre aberto, servindo petiscos e bebidas. Depois de alguns piscos sours, quem sabe você também não se anime para o karaokê (depois das 22 horas). Mas vá com calma: o dia começa cedo.

Quatro estações. Navegando na Patagônia há 25 anos, o capitão Enrique Rauch é a imagem da serenidade. Parece que nada é capaz de abalar seu semblante, nem mesmo a previsão de uma noite com ventos e ondas fortes. “Aqui temos as quatro estações em um dia, o tempo muda muito rápido, é normal.”

A sala de comando é toda informatizada, mas o percurso do navio é marcado a lápis, como antigamente, em cartas de navegação. “O GPS pode não ser tão preciso”, diz o capitão.

 

Entre glaciares e colônias de pinguins

Pinguins-reis: fotogênicos que só. Foto Marina Pauliquevis/Estadão

O termômetro na recepção do navio marca 7 graus – sem contar o vento e, quem sabe, a garoa. Tempo perfeito para visitar mais um ponto de parada. Antes de cada desembarque do Stella Australis (são dois por dia), há palestras sobre as características do local a ser explorado.

Nossa primeira parada foi na Baía Ainsworth, local de passagem de elefantes-marinhos. Fomos recebidos com neve, o que não atrapalhou o passeio. Aqui, surgem os primeiros sinais dos castores, animais que foram introduzidos na região há cerca de 70 anos e hoje são um problema ecológico, já que não têm predadores.

Mas o que emociona mesmo é a proximidade com as geleiras. Vimos várias, do navio, em uma região apelidada de Avenida dos Glaciares. Chegar perto de um deles, contudo, tem outro sabor. Para ter uma visão panorâmica do Glaciar Pía, é preciso subir no topo de um morro, por uma pequena trilha. Antes de voltar para o bote, um providencial chocolate quente aquece os exploradores – ou um uísque com gelo do glaciar.

Desembarcar não significa, necessariamente, atracar. Nas Ilhotas Tuckers, por exemplo, os botes com passageiros apenas contornam as colônias de pinguins-de-magalhães e de outras aves, como cormorões, carancas e a bonita gaivotas-austrais, de penas cinzas.

Inesperado. O último dia de viagem é especial: o cruzeiro chega ao Parque Nacional Cabo de Hornos, ponto mais ao sul do continente. Um monumento que desenha as formas do albatroz (foto) recebe os turistas que superam a escadaria até lá. Atrás dele, o temido Mar de Drake.

Mau tempo e mar agitado por vezes impedem o desembarque. Sim, bate uma ponta de decepção. E nos coloca em nosso devido lugar: como coadjuvantes frente à força da natureza.

Fomos recompensados mais tarde: o céu abriu e o sol deu as caras na Baía Wulaia. Depois de uma trilha íngreme, chega-se ao topo da montanha. Os guias do navio que acompanham os turistas sugerem que se faça um minuto de silêncio para se ouvir os sons da natureza, mas a visão de toda a baía, rodeada por montanhas nevadas, é realmente inspiradora e pede um pouco mais. Todos sentados entre os arbustos, ninguém troca palavra por longos cinco minutos. Uma bela despedida antes de chegar a Ushuaia, nosso ponto final.