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Contra a gourmetização das viagens

Mônica Nóbrega

05 Maio 2015 | 16h56

Sabe a gourmetização que a gente vive reclamando que vem deixando o mundo da gastronomia chato, bobo, arrogante e caro? Pois ela atinge as viagens também. Não tanto em relação aos preços, mas sim ao estilo de turistar. De repente, viajar não basta: é preciso ser blasé, afetar experiência, fazer tudo diferente, não se deslumbrar com aquilo que todo mundo já viu e voltar com uma lista de “lugarzinhos” nunca antes descobertos na história do turismo mundial – ou pelo menos, na sua roda de amigos.

Daí que tanto dogma acaba transformando a viagem naquilo que ela não deveria ser: mais uma lista de obrigações. Além de uma patrulha sobre o jeito socialmente aceitável de fazer uma viagem “de verdade”.

Cansou?


Veja a minha lista de desobediências às obrigações do viajante cool

Tudo bem não viajar leve
Cair na estrada com mala leve virou quase um atestado de que você é descolado o suficiente. Acompanhado da sua mala-média-de-quatro-rodinhas-com-13-quilos-no-máximo, o viajante cool olha com ar de dó para aquela família ali na frente na fila do check-in com suas oito malas empilhadas no carrinho de aeroporto. É verdade que a bagagem econômica facilita um pouco a vida. Mas, se você não vai trocar de hotel todos os dias, ficar numa cabine minúscula de navio com outros três amigos, nem trilhar a Pacific Crest Trail, como a Cheryl Strayed do filme Livre, as malas volumosas vão, no máximo, exigir algum gasto extra com táxis e carregadores. Não chega a ser nenhuma tragédia.

Além disso, nem sempre é possível reduzir tanto a bagagem. É o caso dos destinos de muito frio, onde aquela bota e aquele casaco são mesmo necessários, ou daquelas viagens em que arrasar no look todos os dias é um objetivo. Quem pode julgar?

Free ônibus vermelhos
Inseguro ou com preguiça? Os ônibus de dois andares – vermelhos em muitas cidades, amarelos ou verdes em outras – podem, sim, ser aliados. Você vai direto aos principais pontos turísticos da cidade em questão, desce para passear naqueles que escolher, sente o clima geral e ganha desenvoltura ao perceber que tem turistas iguaizinhos a você por toda parte. Pode até voltar depois aos lugares de que mais gostou ou que não teve tempo de ver. Ou pode se dar por satisfeito. A viagem é sua, a escolha também.

Museus não são obrigatórios
Nem os mais famosos. Recentemente conheci uma professora universitária, pesquisadora de arte urbana, que detesta o Guggenheim de Nova York pelo mesmíssimo motivo que me faz adorar o museu: sua arquitetura. Quase toda a área de exposições é distribuída por uma rampa em espiral; a professora acha absolutamente detestável admirar as obras de arte “na diagonal”, enquanto eu fui conquistada exatamente pelo percurso bem marcado das exposições.

Com o tempo, fui aprendendo o tipo de museu que me interessa: os que têm contexto. Prefiro pintura renascentista na Itália e impressionista na França. Em cidades médias dos Estados Unidos, o apelo de nomes como Monet, Degas e Renoir com frequência faz o visitante se enfurnar em museus supervalorizados para ver obras secundárias, pouco representativas da trajetória do artista em questão. Prefiro gastar tempo e dinheiro em arte contemporânea, em coleções particulares de ilustres moradores históricos da região, ou em museus de brinquedos, sexo, moda, design…

É ok não entender do assunto
O caso do vinho é o mais gritante. Mas, em geral, visitas guiadas por fábricas de bebidas, sejam vinícolas, destilarias de uísque ou cervejarias, despertam o profundo conhecedor do produto em questão que a maioria dos turistas não é. Não desista do passeio por ignorar o assunto. E faça perguntas sem medo: é para isso que tais tours existem. Não tem ideia do que comprar na lojinha ou qual rótulo escolher para acompanhar o almoço? Pergunte, pergunte, pergunte. Vendedores, sommeliers, todos estão aí para isso. Se a eles faltar educação ou receptividade, o problema é deles, não seu. Você se vinga desrecomendando o programa aos amigos.

Você tem fome de quê?
Em poucas palavras: experimentar comida local é ótimo, uma delícia, faz entender melhor o lugar. Mas vá buscar refúgio no McDonald’s se achar que seu paladar está cansado de novidades. Você é quem sabe do que tem fome.

A alegria de fazer selfies
Apenas ignore os olhares de reprovação e faça quantos auto-retratos quiser em quantas paisagens tiver vontade. Obviamente, não vale ser chato. Sacar o pau de selfie nos museus que proibiram o acessório não é cafona, é falta de educação mesmo. Demorar diante de um monumento cheio de gente também querendo fotografar é prova de deselegância e egoísmo. Mas, respeitadas as regras da civilidade e da cordialidade, registre sua passagem pelo mundo quando e como tiver vontade.

Vale também para a comida. Alguns restaurantes proíbem fotografar os pratos. Nos demais, basta permanecer sentado, desligar o flash para não incomodar outros clientes e voilà: seja feliz mostrando ao mundo o que você está comendo.