De bodega em bodega – Parte 3
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De bodega em bodega – Parte 3

Adriana Moreira

10 Dezembro 2013 | 05h00

Quer ter um vinhedo e produzir rótulos com seu nome? Há lotes à venda no Vale do Uco – e os brasileiros são os principais compradores

Cave da O.Fournier, no Vale do Uco – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

A PREFERIDA

A nave espacial arquitetônica no meio do vinhedo, recortada contra o paredão nevado dos Andes, causou uma primeira impressão incômoda. Era intervenção humana demais na paisagem espetacular do Vale do Uco, a uma hora do centro de Mendoza.


Mas, ao fim de três horas, O.Fournier já era minha vinícola preferida. Durante a visita guiada (ofournier.com; com agendamento, de US$ 7 a US$ 25, com três vinhos), vai ficando claro o quanto é grandioso o projeto que o espanhol José Manuel Ortega fez decolar em 2000.

Dos 24 metros de altura total do prédio, apenas 8 metros estão acima da superfície. A ideia de ter quase tudo no subterrâneo é manter a temperatura a 15 graus sem climatização. O laboratório onde trabalham os enólogos, todo transparente, deixa ver a cordilheira com seus 5,2 mil metros de altitude.

A curiosidade é que parte da propriedade está à venda. Dá para comprar até 3 hectares já plantados por desde US$ 180 mil e, a partir deles, produzir vinho nos equipamentos da O.Fournier. Até setembro, 27 investidores haviam comprado seu quinhão de terra – 20 deles brasileiros.

A O.Fournier é um complexo de turismo de luxo. Sua cave gigantesca é uma galeria de arte permanente que expõe e vende quadros de artistas argentinos. Um hotel com 40 quartos e quatro vilas está em construção, previsto para ser inaugurado em 2015.

O restaurante Urban, da chef Nadia Haron, é o melhor negócio gastronômico que se pode fazer em Mendoza. Por 450 pesos, cerca de R$ 170, a gastronomia delicada de sotaque argentino misturado ao da Espanha mediterrânea desfila em seis pratos harmonizados com os vinhos espetaculares da O.Fournier, inclusive o inesquecível Alfa Crux blend, um corte de tempranillo e malbec.

Com tal vinho no copo, carne no prato e o lago lá fora, me peguei pensando que não seria má ideia ter um pedaço daquele vinhedo para chamar de meu.

Bodega Diamandes – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

IMPESSOAL

Depois de toda a diversão e acolhimento na O.Fournier, a vinícola Diamandes ficou em desvantagem. Trata-se de um projeto igualmente grandioso, que reúne quatro vinícolas na finca Clos de Los Siete (clos7.com.ar), em meio ao Vale do Uco.

Só que a visita guiada pecou pela frieza. Tudo dito e visto às pressas. A historinha da bodega e da família fundadora, momento sempre interessante nas visitas, ali foi apresentada de forma protocolar, em um filme projetado na moderna sala de cinema.

Mas foi entrar no salão de degustação que um novo atrativo se apresentou: a degustação vertical, para experimentar o vinho ícone da marca, Clos de los Siete, de três colheitas consecutivas, 2008, 2009 e 2010.

O vinho é um corte de malbec, cabernet sauvignon, merlot e syrah. A colheita de 2009 ganhou um pouco de petit verdot. Em resumo: quanto mais jovem, mais intenso no sabor e mais violeta na cor. À medida que envelhece, fica mais suave, e o tom tende para o laranja acobreado. / MÔNICA NOBREGA

OS ELEITOS

Enamore, da bodega Renacer – Foto: Mônica Nobrega/Estadão

  • Campeão – Enamore, meu vinho preferido na viagem, é da bodega mendocina Renacer (bodegarenacer.com.ar; visitas a 50 pesos ou R$ 19, com reserva), associada à italiana Allegrini. Feito de uvas passas, inclui exposição das frutas ao sol por duas semanas para perder 30% da água e concentrar sabor. A fermentação malolática dá toque de manteiga; na boca, lembra mel. Imbatível.
  • Briga boa – O rótulo O.Fournier 100% malbec é uma edição especialíssima da vinícola, feito apenas em condições muito específicas. Provei o de 2007, excelente (a bodega só vende uma garrafa para cada visitante), mas não meu favorito. O vinho que conquistou meu paladar ali foi o Alfa Crux blend 2006, com tempranillo e malbec. Disputou de perto o primeiro lugar.
  • Outra delícia – Em uma sessão de degustação na bodega Trapiche da qual participaram outras três vinícolas, a Benegas se destacou com um blend delicioso de cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot e petit verdot. De 2007, o Lynch é frutado, potente sem ser agressivo. Desce redondo. A bodega é da mesma família dos fundadores da Trapiche e tem vinhedos de mais de 120 anos. Visitas agendadas para até oito pessoas: bodegabenegas.com.

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