Descanse em paz, Knut
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Descanse em paz, Knut

Mônica Nóbrega

19 Março 2011 | 17h48

A notícia triste deste sábado é a morte do urso Knut. Popstar do zoo de Berlim desde seu nascimento, em dezembro de 2006, o urso polar teve uma vida agitada – foi rejeitado pela mãe, protagonizou performances para pequenas multidões com seu treinador, conheceu a fama, foi abandonado pelos fãs.

Conheci Knut “pessoalmente” em junho de 2008. Lá mesmo, no zoo que era seu lar, o urso, já crescido, parecia viver uma crise de identidade. Na época, escrevi um relato da visita:


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Eu vi o ursinho Knut
Sem a fofura da infância, ele precisa encontrar um novo talento. Ou enfrentar o óbvio: a fama é passageira

Mônica Nóbrega
BERLIM

Meu encontro com Knut foi numa tarde quente de terça-feira, no zoo de Berlim, onde o urso polar nasceu, foi rejeitado pela mãe, ameaçado de morte por especialistas que eram contra a opção de cria-lo em cativeiro e, por tudo isso, ganhou fama planetária e status de mascote da luta contra o aquecimento global.

Ao contrário do que eu imaginava, o cercado onde Knut vive não está fartamente sinalizado. Ao entrar no zoo pelo Elefanten Tor, o portão dos elefantes (há mais duas entradas), a primeira idéia foi conseguir um mapa. Placas indicavam um quiosque de informações não muito próximo, tanto que, durante a caminhada até lá, minha atenção foi desviada pela interessantíssima ala dos macacos. Foi impossível passar reto por orangotangos, bonobos e pelo enorme gorila, que passa horas em pose de sentinela na sua ilhazinha particular. Logo depois estavam as girafas e os elefantes. Empolgada, desisti do mapa.

Em mais de duas horas de caminhada e de trabalho frenético da máquina fotográfica, não vi uma única menção ao urso branco. Só na jaula dos ursos polares, no fundão do zoológico, apareceu a placa discreta indicando sem muita precisão o endereço do astro. Caminhei mais um pouco achando que seria fácil encontrar Knut, que deveria estar cercado de visitantes. Como a esperada multidão demorava a surgir fui, impaciente, pedir informações a um jardineiro do parque. “Entre nessa alameda à direita e vire à esquerda. É o último cercado”. Quis saber se tinha fila. “Fila? Não há mais fila ali.” Sinal dos tempos?

Um casal com três filhos e eu éramos as únicas visitas de Knut. Pouco depois, chegaram duas mamães com suas crianças de cerca de quatro anos. Ouvi claramente a pergunta de um dos dois pequenos: “Mas ele cresceu, mãe?” A voz e a carinha eram mais de decepção do que de admiração.

A verdade é que o Knut atual está longe do bebê branco e gorducho que encantou e comoveu o mundo entre o fim de 2006 e o meio do ano passado. O pêlo é encardido pelo normalíssimo contato com a terra e não mais branquinho. Durante os minutos que passei diante do seu cercado, o urso ficou lá deitadão, modorrento, aniquilado pelo calor forte. Não se moveu – no máximo, ergueu a cabeça –, não fez graça, não atendeu aos chamados das crianças, não tomou conhecimento da nossa presença. E pensar que esse é o mesmo urso que, há poucos meses, em setembro de 2007, chegou a mancar de própósito, para chamar a atenção, depois de machucar uma pata. Puro jogo de cena, segundo seu tratador, Thomas Dörflein, declarou na época à revista alemã Der Spiegel.

Knut me deu a impressão de uma dessas estrelas infantis da televisão que ficam sem rumo quando chega a adolescência. Uma espécie de Simony ou de Britney Spears. Parece estar naquele momento da vida em que quase todo jovem se vê em dúvida entre prestar vestibular ou aprender a tocar guitarra. Agora que suas performances em companhia do tratador Thomas Dörflein foram proibidas pela administração do parque – ele cresceu e, como todo urso polar, passou a ser perigoso para humanos – as multidões de turistas se estapeando para vê-lo parecem coisa do passado. Ele não parece ter encontrado um novo talento. Há pouco tempo, os especialistas do zôo apontaram a solidão como motivo para a tristeza do urso, que sentiria falta de sua mãe desnaturada e do seu tratador. Uma imagem de cortar o coração. Torço para Knut formar uma banda de rock.

Pouco depois que o texto acima foi escrito, o tratador Thomas Dörflein morreu, em setembro de 2008. O querido urso polar teve vida curta e intensa, como um autêntico popstar.

Descanse em paz, Knut.
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Knut em seu cercado no zoo de Berlim, em 2008. Fotos Mônica Nóbrega/AE