E eis que o improvável aconteceu comigo
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E eis que o improvável aconteceu comigo

Fabio Vendrame

21 Janeiro 2014 | 04h20

No meio de um tour, encontrei – e entrevistei – Jaime García Márquez, irmão caçula do autor

Seria ou não obra do tal realismo mágico que, entre ruas de paralelepípedos simétricos e paredes coloniais que viram de tudo nestes quase 500 anos de história, em pleno audiotour sobre a Cartagena de García Márquez, fosse eu, por mero acaso, dar de cara com o irmão do festejado escritor? E que pareceriam instantes os quase 90 minutos que passei escutando seus causos e convicções?

Jaime mostra retrato com o irmão – Foto: Felipe Mortara/Estadão

Os olhos verdes do engenheiro civil Jaime García Márquez, de 73 anos, irmão caçula de ‘Gabito’ (como o chama ainda mais carinhosamente que o país todo), brilham de entusiasmo quando conta as ações da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Periodismo Ibero-americano (FNPI), da qual é diretor de relações institucionais. A cada ano, organiza dezenas de seminários e workshops em universidades de todo o continente com a nobre finalidade – e legítima vontade do irmão – de melhorar a qualidade dos profissionais do jornalismo.


Seus olhos, porém, cintilam ainda mais quando fala do primogênito. Adora responder o que as pessoas querem saber. “O que mais aprecia na obra de seu irmão?”, questiono. “O que mais me interessa é a visão de Gabito, a mais inexata que há. Como a realidade supera a fantasia”, devaneia. “Gosto do quanto ele é expert em fundir essas dimensões de realidade e magia. E já não se sabe mais onde se está vivendo.”

De onde vem uma mente tão inventiva? “Quando ele era pequeno, passava a semana na casa de nosso avô, nos arredores de Aracataca. O velho dava tintas, pincéis e uma parede branquinha para Gabo se divertir. No fim de semana, nossos pais, muito severos, voltavam da cidade, e o avô passava a sexta-feira repintando a parede para que eles não desconfiassem”, lembra. Instalar por toda a Colômbia escolas que estimulem a criatividade artística, com artes plásticas e instrumentos musicais, é uma das grandes causas de Jaime.

Assim como Gabo, o irmão morre de medo de avião e anda de ônibus o máximo que pode. Só voa quando é inevitável, como quando foram a Nova York jantar com Woody Allen, ou nas longas temporadas que passavam em Cuba. “Gabo e Fidel têm uma simpatia mútua. São dois conversadores fora de série.”

Quase diariamente, Jaime telefona para o irmão, que vive na Cidade do México e, aos 86 anos, luta contra uma doença degenerativa que está lhe tirando a memória. Mesmo assim, Gabo passa longas temporadas em Cartagena, rodeado de amigos – um de seus bares favoritos é o Bazurto Social Club (bazurtosocialclub.com), onde reserva mesa para 10 pessoas e devora empanadas de camarão.

Quase no fim do papo, arranco uma confissão objetiva. “Meu livro preferido é O Amor nos Tempos do Cólera. Acho que adoro o enredo porque tem personagens descaradamente inspirados em nossos pais”, revela, com olhar perdido, enquanto me leva até a porta. / F.M.