As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ele não vai à praia de terno

Tania Valeria Gomes

22 Janeiro 2009 | 11h18

Sorrateiramente, mr. Miles escafedeu-se mais uma vez. Em sua correspondência desta semana, o célebre viajante inglês informa que adquiriu um bronzeado invejável (“para ingleses, of course“) durante sua estadia em nossas terras, reviu amigos, comprou o pio que faltava em suas incursões de birdwatching, adquiriu paçocas para uma dileta e gulosa amiga londrina, mandou despachar algumas garrafas de cachaça para o seu pub predileto e, ao ver Ronaldo Fenômeno de volta aos treinos, pensou em convencer seu “good fellow” Jackie Stewart a sentar-se de novo no cockpit de um Formula 1. Em suma, considerou a viagem ao Brasil “delightful” e prometeu retornar em breve. Aproveitando a relativa proximidade, mr. Miles partiu daqui em direção ao Chile, para encompridar a jornada sul-americana na imensa propriedade de Don Jaime Ibañez Acuña Borquez del Trauco junto ao Oceano Pacífico. Don Jaime, que já foi mencionado nessa coluna outras vezes, construiu seu império transandino com a máxima “hacemos qualquer neguecio”, frase em deplorável portunhol que, no entanto, mudou sua vida. Conta mr. Miles que ” com esse espírito, em pouco mais de trinta anos, Don Trauco abandonou a modesta carreira de cáften em Assunção, no Paraguai, para tornar-se a wealthy citizen of the world, sem perder a modéstia jamais. Prova disso é que até hoje ele só bebe e oferece aos amigos cabernet sauvignon em caixas de leite longa vida.
Sobre a coluna da semana passada, que mencionava a crise do Oriente Médio, nosso correspondente recebeu dezenas de emails belicosos de defensores de ambos os lados da contenda. Foi exatamente o que temia.
Agradece, contudo aos leitores Sonia Abdalla Weinberg e Carlos Alberto de Sá Britto que não apenas concordam com a posição do articulista como pretendem participar do grande baile da reconciliação sob as estrelas do Mediterrâneo.
A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: quando vai à praia, o senhor continua usando esse terno antiquado?
Rafael Salmatti, por email
Well, my friend: digamos que há divergências quanto à antiguidade do meu terno. Nem todas as mulheres que encontro simpatizam imediatamente com ele; apenas a maior parte. Quanto à sua provocação, a resposta é não, I’m afraid. Tecidos de boa qualidade encolhem no contato com a água e não vou sacrificar o corte apurado de Clifford Jameson III — meu alfaite há decadas —, durante um banho de mar.
Como qualquer ser humano comum — viajante ou não —, prefiro um bom par de shorts. Que seja suficientemente amplo para que o que está dentro dele não fique atafulhado. Do you know what I mean?
E com esse traje não me importo, sequer, de enfrentar águas de baixas temperaturas, como as da Cornualha, as dos fiordes noruegueses ou as do mar de Tasman, na Nova Zelândia. Recordo-me que, anos atrás, participei de uma expedição de mergulhadores que acompanhavam o trajeto das belugas na Hudson Bay, no Canadá. Ofereceram-me aquelas awful vestimentas de neoprene, que tolhem os movimentos. Optei pelos meus shorts e, of course, quase fui acometido de uma crise de hipotermia. A recompensa veio logo em seguida: uma garrafa de single malt para aquecer-me por dentro. Minha cadela Trashie e eu adoramos a experiência.