Encantos de Sarajevo em um fim de semana
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Encantos de Sarajevo em um fim de semana

Fabio Vendrame

21 Janeiro 2014 | 03h00

Carismática, diversa e cheia de sabores, a vibrante capital parece ter deixado para trás os dias trágicos da guerra civil nos anos 1990, sem, contudo, esquecer seu passado


Alex Crevar / SARAJEVO
THE NEW YORK TIMES

Ao meio-dia em Sarajevo, os muezins cantam seu chamado nos minaretes enquanto os sinos das igrejas ecoam pelos Alpes Dináricos. Bondes passam por pessoas que fumam narguilés. Mulheres chiques estalam seus saltos em becos de paralelepípedos. O carisma da cidade é intoxicante, mas o agito esconde um passado trágico. Em 1992, a capital da Bósnia-Herzegovina se transformou de símbolo da diversidade, com muçulmanos, cristãos e judeus celebrando suas religiões, em palco de um conflito de quase quatro anos que custou mais de 11 mil vidas.

Mas muita coisa mudou nos últimos dez anos. O espírito criativo que os habitantes da cidade lutaram para preservar está em evidência. Os bairros aconchegados neste vale e na orla das colinas ao redor são um fértil terreno para empreendedores e testemunho das épocas anteriores. Cafés, teatros, butiques e restaurantes brotaram entre edifícios de diferentes estilos, incluindo o otomano, secessionista, comunista e moderno. E tanto visitantes quanto moradores estão redescobrindo as montanhas nos arredores da cidade, que receberam a Olimpíada de Inverno de 1984. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Restaurante 4 Sobe Gospode Safije, um dos melhores da cidade – Foto: Djamila Grossmann/NYT

SEXTA-FEIRA

Jantar com história – A aula de história começa com um jantar no 4 Sobe Gospode Safije (os Quatro Quartos da Sra. Safija), numa casa de 1910. Cheio de peças da época, está sempre nas listas dos melhores da cidade. Peça a vitela grelhada com alecrim e molho de anchovas (28 marcos bósnios conversíveis ou R$ 45) ou o robalo com gengibre (21 marcos, R$ 34). Para acompanhar, vinho tinto Blatina ou branco Zilavka, ambos da região.

Cultura e resistência – No mesmo bairro, abaixo do antigo estádio olímpico está o Sarajevski Ratni Teatar (Teatro de Guerra de Sarajevo, ou Sartr). Fundado um mês após o início da guerra civil, o Sartr organizou centenas de espetáculos durante os conflitos, tornando-se um símbolo de resistência. “Usar a criatividade era a única maneira de sobreviver”, disse Nihad Kresevljakolic, diretor do teatro. “Assim, os habitantes de Sarajevo entendem que a cultura e a arte são necessidades básicas.” O repertório, montado com flexibilidade e simplicidade (ingressos a 5 marcos ou R$ 8), canaliza aqueles instintos à flor da pele para obras empáticas – musicais, espetáculos de dança, teatro…

Bar kitsch – Para se divertir à noite, procure o Zlatna Ribica (Peixe Dourado). Próximo da Chama Eterna que honra as vítimas da 2ª Guerra Mundial, este bar e café é o mais kitsch de Sarajevo. No fundo ouve-se jazz. Peça vinho tinto quente (R$ 8) no inverno, e sangria (R$ 8) no verão.

SÁBADO

Café e memórias – Para os moradores de Sarajevo, beber kafa (café) é um ritual para relaxar, e não para acelerar. No rústico Cajdzinica Dzirlo, no extremo leste de Bascarsija, pode-se saborear um espesso e espumante café bósnio servido em xícaras de cobre (3 marcos ou R$ 5 por duas xícaras). Mais contemporâneo, o Rahatlook oferece também doces como o orasnica (R$ 5), recheado de nozes. Depois, o tour Tempos de Infelicidade (54 marcos, R$ 88) ajuda a entender Sarajevo, onde uma bandeira nacional diferente foi hasteada sete vezes nos últimos 150 anos. Os guias explicam as tempestuosas transições, concentrando-se na guerra de 1992 a 1995. No caminho, a vista do vale a partir da antiga Fortaleza Branca. Destaque para o Museu do Túnel, onde os moradores da cidade escavaram, em 1993, uma passagem subterrânea de 900 metros que se tornaria a única linha de suprimentos ligando a cidade sitiada ao mundo exterior.

Almoço típico – Vá de táxi até o pé das colinas e passe pelos mahalas (bairros) mais antigos de Sarajevo, da era otomana. Ali, almoce no Kibe, que serve os melhores pratos típicos da cidade. Peça o klepe, espécie de ravióli banhado em creme azedo (12 marcos, R$ 19). No momento da reserva, garanta o cordeiro assado no espeto (14 marcos, R$ 23), especialidade da casa. De estômago cheio, é hora das compras. Ao longo da principal rua comercial de Sarajevo, que muda o nome de Saraci, no bairro otomano, para Ferhadija, na região da era secessionista, artesãos esculpem, costuram e soldam em ateliês escondidos nos becos. Num deles, visite a Kazandzijska Radnja (Kazandziluk 18), onde Muhamed Husejnovic molda, a marteladas, conjuntos de xícaras de cobre (cerca de 50 marcos, R$ 82). Ao lado da mesquita Gazi Husref-bey, do século 16, a Becart é especializada em joias de prata feitas no local (desde 200 marcos ou R$ 330). Na Ferhadija, Edo Smajcic mede os pés do freguês e cria sapatos de couro sob medida.

Quando a noite cai – Numa cidade com poucas opções vegetarianas, o Karuzo é uma bênção. Fica atrás do mercado, onde o proprietário, chef e garçom Sasa Obucina compra os ingredientes. A abóbora assada e gratinada com grão-de-bico e queijo de cabra (17 marcos, R$ 28) é saborosa, parecida com uma lasanha, e fica perfeita com uma taça de vinho branco. Quem não é vegetariano pode pedir também frutos do mar e sushi. Para fazer a digestão, prove o rakija, um destilado de produção caseira semelhante à grapa, que ganhou sabores frutados e se tornou a bebida preferida dos hipsters. Nos vários andares do restaurante e grapperia Barhana, pode-se encontrar 25 variedades (desde 3 marcos ou R$ 5), um forno de pedra para pizzas e um jardim de verão oculto no coração da Bascarsija.

DOMINGO

Brunch na rua – Ninguém fica em cima do muro quando o assunto é comida de rua em Sarajevo. Para muitos, o cevapcici (pronuncia-se mais ou menos assim: che-vahp-chi-chi) – linguiças de carne bovina servidas com pão sírio, cebolas e um queijo cremoso chamado kajmak – é o rei supremo. Em Cevabdzinica Zeljo 1, prepare-se para pedir porções de cinco unidades (3,50 marcos, R$ 6). O segundo lugar fica com o burek: massa recheada de carne. Versões com batata, queijo e espinafre são chamadas de pita. No Buregdzinica Bosna, acompanhe essas saborosas porções de torta (3 marcos; R$ 5) com um copo de iogurte. Complete o tour com uma visita ao Cafe Slasticarna Ramis, doceria com mais de 100 anos que serve a tufahija (4 marcos; R$ 7), maçã escaldada recheada com creme batido e nozes.

Cafe Slasticarna – Foto: Djamila Grossmann/NYT

Panorâmica antes de partir – Escondidas num vale aberto por um rio entre montanhas, as belezas naturais de Sarajevo são, muitas vezes, esquecidas. A Green Visions organiza passeios ecológicos e pode buscar o turista em qualquer parte da cidade. Prepare-se para uma caminhada de 3 a 4 horas (80 marcos ou R$ 130 por pessoa) por florestas de abetos até o cume do Trebevic, montanha com 1.620 metros de altura. Lá encontramos um panorama impressionante da cordilheira que recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 – e da própria Sarajevo.