Estranho, mas sou peregrino
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Estranho, mas sou peregrino

Felipe Mortara

01 Outubro 2015 | 19h06

Soa estranho escrever isso, mas me sinto peregrino. Após dez dias gastando sola no Caminho de Santiago, corpo e mente se transformam e adquirem estranha aura. Dores passam a ter sentido e aprendemos a interpretá-las. E nossos sorrisos parecem atrair os dos outros mais e mais.


Depois de Estella, onde dormi quebrado e manquei como se estivesse mutilado, até que fiz um bom dia de caminhada a Sansol. Assim como Filipe, que no seu ritmo de fotos e filmagens vai relendo e dando seu olhar

Caminho de Santiago: a jornada
Filipe Araujo/Estadão
Chegada

Vista da cidade de Santiago de Compostela com a Catedral ao fundo: ali estaria enterrado o apóstolo Tiago

ao percurso. Me surpreendi na imponente Catedral de Los Arcos – haja ouro, rapaz. Quase todo o dia tive a companhia do professor de highschool canadense Iam McAdams, com bons causos sobre jovens, frio e caiaques. “Roubamos” uvas dos pés, ele achou o máximo. Sansol miudinha, mas com tratamento autêntico e carinhoso da Arantxa, do Albergue Sansol. Tinha até piscininha gelada para os pés peregrinos. Na farmácia comprei e estreei meu primeiro Compeed, adesivo de silicone para tratamento de bolhas. Durou quatro dias até descolar. O Xavier, um francês simpático e rechonchudo lutava com bolhas e o sobrepeso desde que havia saído de casa, há 26 dias.

Dia lindo de sol foi o que mais houve. Não dá pra reclamar de nada (xiii, foi só falar. Dizem que chove amanhã). Passei por Viana, onde termina Navarra e começa a região de La Rioja. Ali abandonei minhas havaianas e comprei um par de papetes da marca Source, que me permitiu ter alternativa à bota. Estou me dando bem com elas, mas doem um pouco os músculos da parte anterior da canelas. Ah, conheci cinco brasileiros, Nana, Rosane, Rafael, Bruna e Seu Osmar, que pretende completar seu aniversário de 70 anos dia 21 de outubro em… Santiago de Compostela!

VÍDEOS – Confira os melhores momentos até agora!

 

Chegar em Logroño é refrescante, com lava pés na entrada da cidade. Com direito a sorvete, ficamos no Albergue Santiago Apóstolo, um dos menos apreciados até agora. Um francês ao meu lado roncava como se anunciasse o apocalipse. Eram 18 pessoas no quarto. A noite lá é linda, com pintxos (espetos) e vinho excelente por 1,70 euro na acolhedora e cênica Calle Laurel. Filipe teve problemas com a cicatriz de uma cirurgia há 9 meses no tendão de aquiles, que inchou. Repouso e carona.

No dia seguinte, foi duro achar energia para as 10 horas andando até Nájera. Filipe descansou de novo e foi de carona com o simpático Raul, da empresa de transporte de mochilas Antzin. Apesar de longo, para mim o melhor dia até então. A paisagem vinícola, repleta de bodegas colhendo suas uvas com caçambas forradas de cachos. Quis mergulhar naquelas piscinas ambulantes.

A entrada em Nájera é meio chatinha, mas um poço alivia a sede dos peregrinos. Tivemos tempo de pegar uma maçã no pé. Pouco vi da cidade. Jantamos menu peregrino a 10 euros com os brasileiros. Vieira de entrada e vinho bem bons.

Pela manhã seguinte, Acácio Paz, da Red de Albergues Camino de Santiago, que tem nos ajudado muito com logística e dicas, veio nos buscar de carro. Nosso primeiro dia conjunto de repouso, e ele nos levou a San Vicente de la Sonciera, famosa cidade produtora de vinho em La Rioja. Angel Campero, de 63 anos, trabalhador com ares de bon vivant e dono do Restaurante La Vistilla, nos levou até Contador, uma das mais famosas e modernas bodegas da região. Acompanhamos a produção de vinho, desde a colheita até o envase. Foi mágico, saboroso e revigorante. E um pouco etílico, inegavelmente.

 

MINUTO ESTADÃO – Você sabe o que é o Caminho de Santiago?

Jantamos com Acácio e peregrinos em seu Refugio Acácio y Orietta, em Viloria de Rioja. Orietta, italiana de olhar doce, preparou um feijão com carnes de chorizo. Escutamos lindas histórias de peregrinos australianos, neozelandeses, alemães e ingleses, além de contarmos as nossas. Me emocionei. Pela primeira vez em dias dormi sem sentir dor alguma, após carona de Acácio até Santo Domingo de la Calzada.

Saí cedo como nunca, às 6:30, e me perdi, após deixar de ver um dos sinais de concha. Por meia hora cacei sinais até achar outros semelhantes, que não abriram mão do peso da lanterna de cabeça. A lua cheia desencobriu só depois. Segui um coreano miudinho num passo surreal, ao som de AC/DC e Arctic Monkeys.

Granon (Granhon) é fofa, e de seu albergue paroquial encontrei os amigos brasileiros saindo. Lentos, mantivemos bom ritmo até Belorado. Meu Compeed caiu pela noite e, no meio da estrada, sequei o pé e troquei. Vesti papete em vez da bota. Já era tarde, brotou uma dor estranha na sola. Não piorou nem melhorou. O novo adesivo segue firme.

Em Belorado, a apenas 16 km e 6 horas de caminhada de Granon, um supermercado foi garantia de economia: almoço, jantar e café da manhã por 60 euros. Ainda angariamos mais cinco pessoas, incluindo a fisioterapeuta mineira Angela, que passou a andar com o grupo. Filipe picou cebolas e alho, e eu preparei um macarrão ao molho de tomates frescos com salcichón. Diz que o pessoal gostou. Fim de tarde com sol num jardim e trilha sonora ótima por 11 euros, bom albergue o Quatro Cantones. Fiz ainda um omelete pá pum no jantar. Vinho, sempre riojano. Por 4 euros, ótimas opções.

Enfim, chegamos ao dia de hoje. Saímos cedinho de Belorado para uma jornada de 27 km que levou 10h30 até a pequena Agés, de onde escrevo. Todos devagar, muitos com lesões. Cansados, encaramos um… menu do peregrino – afinal, é isso o que viramos.

Amanhã madrugaremos para andar os 23 km que nos separam de Burgos. Filipe andou bem hoje e amanhã deve seguir junto. Despachar a mochila grande tem sido opção de uns 60% dos peregrinos já nesse trecho. Ansiosos pela última cidade grande por um longo trecho. Grande e histórica, cheia de causos. Assim como nós.

PS: em Logroño, o Filipe assistiu a uma missa do sacerdote Manuel na catedral e ficou amigo dele, com quem tem se comunicado por WhatsApp com regularidade. Em geral é o padre que, preocupado, pede por notícias.

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Filipe recebe as bênçãos do Padre Manuel na Catedral de Santa Maria de La Redonda, em Logroño

Filipe recebe as bênçãos do Padre Manuel na Catedral de Santa Maria de La Redonda, em Logroño