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Festival termina em João Pessoa como alternativa turística

Mônica Nóbrega

07 Dezembro 2013 | 20h31

Bruna Toni / JOÃO PESSOA
De costas para o público, um maestro não deixa notar sua concentração e dedicação durante todo o tempo que está ali, comandando um verdadeiro exército de músicos. Mas não é difícil, mesmo para os mais leigos, perceber tudo isso. Basta “afinar” bem os ouvidos e o coração para entender que a orquestração não é perfeita sem uma boa regência. Por isso, na noite deste sábado, quando Laércio Diniz subir ao palco montado na Estação Ciência, na zona sul de João Pessoa, na Paraíba, o clima não será outro que o de emoção e sensação de dever cumprido.
Violinista desde os 16 anos e maestro, Laércio Diniz assumiu, depois de tantos anos de experiência pelo mundo todo, o papel de democratizar e “desmistificar”, como ele mesmo diz, a música erudita como algo inacessível à maioria da população. “As pessoas mais simples conhecem a música clássica, só que não sabem que aquilo é música clássica. Por exemplo, a propaganda do desodorante é Vivaldi, eles não sabem, a propaganda do sabonete é Bach. Tem muita gente que nunca entrou no Teatro Municipal de São Paulo por medo. Eu conheço vários taxistas que não vão lá porque acham que é obrigatório entrar com roupa chique, por exemplo. É mais barato que um cinema e você pode entrar de qualquer jeito”, afirma o maestro.
A inciativa de participar da fundação da Orquestra Sinfônica de João Pessoa, criada em outubro deste ano, e de assumir a direção artística do primeiro Festival de Música Clássica Internacional na cidade vieram colocar em prática todo este pensamento. “O povo acolheu muito bem essa ideia porque já existia uma tradição por aqui. É um projeto de música clássica, mas tem a ver com arte, com turismo, tem a ver com praticamente tudo que essa cidade tem”, conta Laércio, que regeu a recém-criada orquestra da cidade na abertura do Festival e fará o encerramento ao lado do maestro Carlos Anísio, em um palco montado no estacionamento da Estação Ciência, a partir das 21h (horário de Brasília).

“Virada Cultural” de João Pessoa

Intercâmbio cultural e ocupação de pontos históricos foram o diferencial do evento que chegou a reunir 6 mil pessoas na apresentação de estreia e quase duas mil em cada um dos dias. A programação foi vasta: três apresentações na parte da tarde e noite, além do chamado master class (aulas gratuitas de piano, fogote, viola, violão, oboé, clarinete e trompa) com os principais nomes do Festival, como Fabio Zanon e Anna Federova. “O que está acontecendo em João Pessoa é quase uma Virada Cultural como a que existe em São Paulo”, resume o maestro Laércio Diniz.
Em época de alta temporada, João Pessoa vem atraindo cada vez mais turistas interessados não só nas suas lindas praias e paisagens, como também na sua vida cultural. Por isso, a iniciativa de levar a música clássica para dentro de espaços como as antigas igrejas desta cidade que tem tanta histórica para contar parece ter conquistado a simpatia de moradores e viajantes. “Estive aqui (Paraíba) duas vezes, conheço várias cidades do Brasil, adoro todos os lugares, mas é de João Pessoa que gosto mais”, revela o violoncelista holandês Fred Pot, que veio para tocar no Festival, mas quer aproveitar para passear também.
O segredo está em apostar na cultura local e trazer boas referências de fora. Afinal de contas, todos querem ver a paraibana Lucy Alves, que toca na banda de Alceu Valença atualmente e participou do programa The Voice Brasil, cantar e tocar sua sanfona ao lado dos jovens talentos da Orquestra de João Pessoa, sob a regência de dois grandes maestros e os olhares atentos de músicos do mundo todo. E a “injeção” cultural não para aí. É possível que você se sinta em São Paulo ao olhar a construção do auditório da Estação Ciência e notar certa semelhança com o do Parque do Ibirapuera. Pudera. Quem assina seu projeto é Oscar Niemeyer. Mas em nenhum outro lugar Lampião e Maria Bonita estariam tão bem retratados como nas paredes do espaço cultural paraibano.