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Fim de ano sem lentilhas

Tania Valeria Gomes

31 Dezembro 2008 | 11h37

Especula-se que mr. Miles está chegando ao Brasil nesta semana. A notícia não está confirmada, mas, há poucas semanas, nosso correspondente britânico anunciou que viria, com certeza, passar alguns dias em Florianópolis. Outra evidência, que compartilhamos com os leitores, foi uma consulta informal feita pelo bravo viajante sobre as escalas de fim-de-ano da redação — dando a entender que, finalmente, ele nos conceda a honra de sua visita. A expectativa, por aqui, não é muito grande; em suas últimas e fugazes passagens pelo Brasil, Miles frustrou seus companheiros de redação. Alguns jornalistas deste matutino atribuem os diversos forfaits do viajante inglês ao receio de que algum fotógrafo da casa tente capturar retrato mais atualizado da excêntrica figura — hipótese inadmissível para mr. Miles por motivos de superstição, conforme já comentado anteriormente. Ainda assim, há um certo frisson na redação que, desde já, agradece as notícias de quaisquer leitores que tenham a oportunidade de encontrá-lo durante o Réveillon.

Querido Mr. Miles: o senhor pratica alguma mandinga de réveillon como nós? Marcia Bello Solgese, por email

Well, my dear: na verdade só depende de onde eu estou quando um ano se encerra. Cada lugar, as you know, tem os seus próprios hábitos e, como hóspede, costumo respeitar e juntar-me às… well…, mandingas alheias que, no mais das vezes, são inofensivas, quando não verdadeiramente eficientes. Rituais de passagem mostram, by the way, como estamos próximos dos povos primitivos que nos originaram e, of course, pelo mesmo medo que nos assola, sempre bajularam descaradamente o desconhecido. Algumas coisas, however, me recuso a fazer. Por muito tempo fui obrigado a ingerir detestáveis porções de lentilha enquanto ainda vivia na casa de meus pais, em Essex. Um dia, arrisquei o ano vindouro e rejeitei minha porção. A expectativa de uma tragédia não se realizou, Thanks God. E os meses se passaram felizes, na certeza de que não haveria lentilhas no réveillon seguinte.
Os fogos de artifício, as you know, são uma tradição de origem oriental.
Luzes e ruídos para espantar os maus espíritos. Nowadays, o que era uma inofensiva barulheira tornou-se um longo bombardeio. Os maus espíritos, I presume, é que estão organizando a foguetagem.
De todas as superstições de New’s Year Eve, a que mais me agrada é a que sugere beijar a mulher amada no exato instante das doze badaladas.
Tem poesia — e começar um ano com poesia é mais bonito do que berrar, sujar as praias (jogando coisas ao mar, como vocês gostam, isn’t it?) ou mergulhar em fontes geladas como os londrinos embriagados fazem em Trafalgar Square.
A mais assustadora das superstições, felizmente não muito repetida no Brasil, é aquela que anuncia morte na familia dos que lavarem roupas no primeiro dia ano nascente. É a chamada praga inócua, isn’t it? Pois quem haverá de lavar roupas justo no dia internacional da ressaca? Happy New Year, my friends! Ah: e não esqueçam de abrir as janelas exatamente à meia noite do dia 31. Garantem os sábios que só assim o Ano Novo entrará na sua casa. E o velho partirá para sempre.