As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

For God’s Sake, I’m blogged!

Tania Valeria Gomes

11 Novembro 2008 | 10h48

Well, my friends: o mundo está girando rápido demais indeed. Ainda recentemente eu registrava minhas humildes histórias de viagem em missivas, utilizando-me de penas encharcadas de tinta e imprescindíveis mata-borrões. Uma correspondência escrita, digamos, no interior da África podia chegar ao seu destinatário com muitos meses de atraso e não foram poucos os casos em que acabei recebendo meus escritos de volta porque os destinatários, unfortunately, pereceram durante a jornada de minhas notícias. Caso de meu bom tio Pancras, a quem contei sobre meus encontros com pigmeus (ele sempre duvidou da existência de gente assim), mas, vítima do desgosto com um cavalo perdedor, morreu na dúvida.
Eis que o tempo passou, a velocidade das comunicações aumentou e, ao que parece, alguns episódios de minha vida peregrina tornaram-se curiosos para determinados leitores. Tem sido uma honra compartilhar minhas vagas lembranças de viajante com tantos leitores. Envaidece-me encontrar, semana após semana, minha caixa-postal entulhada de perguntas e observações most of the time quite interesting. Agora, fellows, solicitam-me que volte a tomar vosso tempo através de um blog. It’s amazing! Dez anos atrás essa palavra sequer existia. Lembro-me que, em minha infância, no Condado de Essex, usávamos um som semelhante para imitar os sapos que coaxavam em nossos fartos alagados.
Foi só mais tarde, como viajante, que descobri o log como sendo o diário de bordo dos comandantes de embarcações. Lembro-me que, algumas vezes, ao procurar o capitão do clipper que me levava, era advertido por seu imediato: “Agora não, Miles. The captain is logged.”
Pois aqui estou eu, blogged. E assim permanecerei com a assiduidade permitida a quem muitas e muitas vezes continua mais próximo de um velho caderno do que de um cybercafé.
Os que acompanham minhas aventuras no caderno Viagem do Estadão ou na revista Próxima Viagem não precisam ser molestados com minha história pregressa.
Para os demais reproduzo, no próximo post (não é mais correio, my God?) uma pequena biografia publicada há quatro primaveras pelo Estadão. Desatualizada, of course.

O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO

Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Até a última vez que o contatamos, ele já havia visitado 130 países e sete territórios ultramarinos, inclusive Tuvalu e Burkina Fasso. Para pelo menos 40 desses países, Mr. Miles já voltou tantas vezes que se tornou popular entre os agentes alfandegários.
Sua coleção de passaportes inteiramente carimbados, que ele mandou encadernar num velho especialista da cidade de Aleppo, na Síria, produziu doze volumes espessos como uma enciclopédia. Fluente em nove idiomas e capaz de “virar-se” bem em outros 36 (inclusive o dialeto xhosa, que aprendeu com um primo-irmão de Nelson Mandela), ele pode se comunicar com praticamente qualquer ser humano do planeta, o que lhe confere uma vantagem notável sobre nós, turistas comuns.
Mr. Miles, que nasceu no condado de Essex, na Inglaterra, poderia ter sido um guarda-livros, como seu pai. A herança de uma longínqua e solitária contraparente, porém, tornou-o um homem inesperadamente rico. Como qualquer pessoa sensata com uma bolada na mão, Mr. Miles resolveu viajar para além do eterno fog de seu bairro triste. Comprou uma passagem para a América do Sul num vapor em Southampton e nunca mais foi visto sem a companhia de uma mala.
Sua idade é um mistério. As más-línguas — e sempre as há — garantem que ele presenciou a inauguração da Torre Eiffel, na Feira Mundial de Paris e é notório que, vítima de um severo atoleiro, não conseguiu embarcar na única viagem do Titanic.
O fato, entretanto, é que entre as manias de mr. Miles, uma é esconder a idade. Não faz mal. Pensem as pessoas o que quiserem, em nada compromete um grande viajante ter um pouco de experiência.
A fortuna da tal contraparente esvaiu-se há tempos, mas Mr. Miles continua viajando com o entusiasmo de um noviço. Diz-se que, hoje, ele praticamente não gasta nada ao fazê-lo. É sócio-remido de oito diferentes programas de milhagem e hospeda-se aonde quer, porque, ao longo dos anos, tornou-se padrinho de casamento ou batizado de inúmeros concierges, porteiros e donos de hotel.
Por isso mesmo, aliás, ele jamais faz uma recomendação nominal: quer conservar seus amigos e sua postura elegantemente eqüidistante.
A vida de mr. Miles, enfim, é fascinante. Detalhes de seu comportamento e relatos de suas viagens serão contados neste espaço todas as semanas, ou, pelo menos, sempre que for possível contatá-lo.
Mr. Miles também estará à disposição do leitor deste caderno para responder perguntas relativas a lugares, povos, comportamento, aventuras, gastronomia e etiqueta de viagem.
É a primeira vez que ele concorda em fazê-lo para um jornal de qualquer parte do planeta. Na verdade, até há poucos anos, Mr. Miles só compartilhava suas experiências com amigos (“amigas, lovely women, de preferência”), se possível na presença de uma garrafa de scotch.
(“Embora eu não compreenda como até hoje eles não aprenderam a falar inglês, sou obrigado a reconhecer a notável contribuição dos escocêses à humanidade, notadamente no campo etílico”).
No início de 2000, durante uma temporada de férias na ilha de Lampedusa, no Mediterrâneo, concordou em destinar momentos de ócio para relatar algumas experiências para os leitores da revista PRÓXIMA VIAGEM. Era para ser, como ele gosta de frisar, “just for fun”, mas funcionou. Os leitores apreciaram e pediram mais. Hoje são seis os fãs-clubes do emérito viajante no Brasil, um deles em Iamundá, no Amazonas, dirigido por uma senhora que — dizem —, tem o coração em pandarecos.
Aos que quiserem enviar perguntas, oferecemos o miles@estadao.com.br


Mais conteúdo sobre:

Mr. MilesMr. Miles