Gastando a sola nas ladeiras do Porto
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Gastando a sola nas ladeiras do Porto

Adriana Moreira

17 Dezembro 2013 | 02h10

Descanso e contemplação às margens do Rio Douro – Foto: José Manuel Ribeiro/Reuters

No sobe e desce das ruas empinadas da ‘Invicta’ revelam-se endereços curiosos e imprescindíveis – e você ainda entra no ritmo cotidiano dos moradores

Mateus Andrighetto Tamiozzo
ESPECIAL PARA O ESTADO / PORTO

As ladeiras da Baixa do Porto – a parte mais antiga da cidade – têm muito a mostrar. Subir e descer por elas pode ser um desafio cansativo, desgastante para a sola do sapato, mas a atmosfera de uma cidade que pulsa para contar histórias faz valer as prováveis dores nas pernas ao fim do passeio.


Esqueça o metrô. As estações que ficam na região da Baixa – Trindade, Aliados, São Bento e Bolhão – são próximas umas das outras e é possível evitar o tubo subterrâneo que serpenteia a Invicta, como a cidade é conhecida, por resistir à tentativa de invasão pelo exército miguelista em 1832 e 1833.

A Rua de Cedofeita, primeira parada do trajeto, é um ponto de compras. Os prédios “magros” e antigos, datados do século 18, criam um ambiente que reflete uma região homogênea e que sobrevive ao tempo. É um espaço prazeroso, que se torna ainda mais especial quando o turista se permite deixar invadir pelos sons que ecoam de diversos instrumentos tocados na rua por moradores da cidade.

Na direção do Jardim de Carlos Alberto e da Praça dos Leões, onde está a reitoria da Universidade do Porto, a caminhada fica ainda mais interessante: lá no fim da rua, a Torre dos Clérigos se impõe, como se estivesse à espera de ser tocada.

A Praça de Carlos Alberto, no fim da Rua de Cedofeita, fica ainda mais especial aos domingos. Uma simpática feirinha de antiguidades apresenta aos moradores e aos turistas raridades em discos de vinil, roupas e outros objetos – apreciados tanto pelas novas quanto pelas velhas gerações. A experiência em um dia ensolarado no inverno torna tudo especial: os pufes colocados no local são bastante convidativos para passar horas contemplando e sentindo a calma do ambiente.

Cem metros adiante, pela Rua de Carlos Alberto, o cenário é o prédio da reitoria da Universidade do Porto, na Praça de Gomes Teixeira, também conhecida como a Praça dos Leões. Assim é chamada pela fonte onde quatro estátuas de leões jorram água pela boca.

Por ali também passam os eléctricos, bondes que até hoje operam e transportam passageiros dentro de uma região limitada da cidade, que vai além da Baixa – um meio de transporte como qualquer outro. Vale quebrar o trajeto para voltar ao passado e viver um pouco daquilo que foi, há décadas, um símbolo de modernidade.

A famosa Livraria Lello – Foto: Rafael Marchante/Reuters

Literalmente. A Rua das Carmelitas, adjacente à Praça de Gomes Teixeira, abriga a Livraria Lello. Um ponto de parada obrigatória, por seu acervo, beleza e representatividade. Surgiu em 1869 e chama a atenção por seu estilo arquitetônico neogótico. Do lado de dentro, suas escadas vermelhas, em espiral, e um grande vitral dão um aspecto de uma grande flor prestes a desabrochar. É proibido tirar fotos dentro da livraria (a que ilustra esta reportagem é uma rara imagem), que foi um dos sets de filmagem dos longas da série Harry Potter, como cenário para a Livraria Floreios e Borrões, onde os personagens compram materiais escolares para estudarem em Hogwarts.

Aos pés do Jardim João de Chagas – também conhecido como Jardim da Cordoaria – alcança-se, finalmente, a Torre dos Clérigos. Desde 1763, ela se impõe impávida no centro da Baixa do Porto com seus 225 degraus, que podem ser galgados para garantir uma das vistas mais incríveis da cidade. Ao lado está a Igreja dos Clérigos, em estilo barroco e rococó que sintetizam, em partes, a arquitetura da Baixa.

Depois do almoço, faça a digestão pela Rua de Santa Catarina, e suas famosas lojas de grife. Também estão lá as lojas populares, a maioria comandada por chineses, turcos e indianos. Passear por ali fica ainda mais gostoso com o cheiro de castanhas assadas na rua, uma simplicidade que contrasta com as ofertas de última moda das grifes.

Ladeira abaixo, as paredes da estação de São Bento – considerada uma das mais belas do mundo e Patrimônio Histórico pela Unesco – contam parte do passado de Portugal, com referências à família imperial e a outros importantes momentos. Quase ao lado está a Catedral da Sé, construída por volta do ano 868. A igreja também é um mirante para o Rio Douro e faz crescer a expectativa para conhecer a Ribeira. É hora de descer a última ladeira.

Evitar o Funicular dos Guindais é um dever – chegue à Ribeira pelo seu próprio esforço. As Escadas do Barredo o fazem se sentir imerso na história do Porto, ao longo de seu estreito, e aparentemente infinito, caminho entre as casas. Subitamente chega-se aos pés da ponte dom Luís VI, a mais conhecida do Porto. Já a descida pela Rua Mouzinho da Silveira e Rua São João deixa no ar uma expectativa, correspondida quando o Cais da Ribeira é alcançado.

Contemplar é a primeira reação: Rio Douro, ponte dom Luís VI e as caves de vinhos, do outro lado do rio, somados ao incansável e estridente grito das garças.

Calorias à francesa e uma espiada na noite

Filha da terra, ela está presente em todo boteco ou restaurante tradicional. A deliciosa bomba calórica batizada de francesinha é um sanduíche que, dizem, foi criado por um morador do Porto, inspirado no período em que viveu na França, lá por meados do século 20.

São duas fatias de pão recheadas com bife, mortadela, presunto e linguiça, cobertas por queijo derretido e um ovo frito de gema mole, mais batatas fritas gorduchas e molho de carne apimentado. No restaurante Alma Portuense (restaurantealmportuense.pt), a maravilha custa € 7. Outras perdições de sotaque português são servidas ali a preços módicos: bacalhau à moda de Braga, € 12; e costeletas de porco, € 5.

O Café-restaurante Guarany (cafeguarany.com), na subida por Aliados em direção à Câmara, serve menus a preços que variam de € 20 a € 35, com pão, sopa, bacalhau, sobremesa, bebida e café. Nada mal.

Na Rua de Santa Catarina, o Café Majestic (cafemajestic.com), um dos mais famosos da Europa, é uma boa opção de parada antes de descer em direção ao Rio Douro. Peça um café ( € 3) ao entardecer e aproveite o ambiente deslumbrante, romântico e cheio de história – e o Wi-Fi, claro. O prédio foi construído em estilo art nouveau em 1917, quando o café ainda se chamava Elite.

É festa. Às segundas-feiras, a noite da Ribeira fica abarrotada de jovens portuenses e intercambistas. Fazem sucesso os baldes de bebida – copos com capacidade para 750 ml –, sejam de cerveja ou destilados, vendidos a € 2,50 cada.

Nos outros dias da semana, o lugar é ótimo para almoço ou jantar. A Canastra da Ribeira (acanastradaribeira.com) tem boa variedade de comida tradicional: tripas à moda do Porto (€ 8), bacalhau grelhado (€ 14,50) e, claro, francesinha (€ 8,50). O restaurante Mercearia (restaurantemercearia.com) tem em seu menu sugestões como salmão grelhado a setubalense (€ 13,50), bacalhau assado na brasa (€ 16,90) e lombinhos de vitela (€ 15,50). Tudo diante do Rio Douro e das luzes das caves, na margem oposta.

Para esticar a noite, siga para os bares e festas na região da Praça dos Leões. O Âncora D’Ouro, conhecido como Piolho (cafepiolho.com), a Adega Leonor e a Galeria de Paris são referências baladeiras na cidade. / M.A.T.

  • SAIBA MAIS:
  • Passagem aérea: o trecho São Paulo–Porto–São Paulo custa desde R$ 2.442, com uma conexão, na Lufthansa (lufthansa.com); R$ 2.890 na Air France (airfrance.com.br); R$ 3.383 na TAP (flytap.com); R$ 3.471 na Iberia (iberia.com.br); R$ 4.408 na TAM (tam.com.br)
  • Trem: a viagem do Porto até Lisboa pode levar de três a quatro horas e meia, a depender do trajeto e do tipo de comboio. Há várias partidas diárias e os preços variam de 19 a 43 euros no site da Comboios de Portugal (www.cp.pt)
  • Sites: visitportugal.com; portoturismo.pt