Genuíno ou adotado, conheça dois filhos ilustres da Chapada Diamantina
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Genuíno ou adotado, conheça dois filhos ilustres da Chapada Diamantina

Felipe Mortara

17 Março 2014 | 19h48

Seu Cori conta como era a vida no garimpo, na réplica que construiu em seu quintal, em Lençóis. Foto: Felipe Mortara/Estadão


Felipe Mortara

Quem tocar a campainha do número 132 da estreita Rua São Benedito pode ser recepcionado por um senhor simpático, de bigode ralo e um resto de cabelo branco esvoaçante. Por trás dos óculos escuros e do alto de seus 86 anos, Coriolando Rocha de Oliveira, ou simplesmente Seu Cori, abrirá a porta com um sorriso no rosto e a esperança de escutar muitas perguntas. E não precisa ser repórter para isso.

Garimpeiro desde os 12 anos, saiu da pequena vila de Rio Grande aos 21. “São quatro léguas daqui de Lençóis até lá”, explica ele sentado no terreno onde construiu sua vida. Hoje está completamente aposentado. De garimpar parou há 20 anos, em 1994, quando o garimpo foi proibido na Chapada. Mas Seu Cori mantinha atividade paralela no quintal da própria residência, onde ergueu – de pau a pique, como na serra – uma autêntica Casa do Garimpeiro. Ali dentro reproduziu uma pequena habitação do garimpo para mostrar aos turistas como era exercer esta tarefa tão árdua. “O garimpeiro é um engenheiro da serra. Ainda bem que peguei bastante diamante e consegui construir minha casa e também formar todos meus meninos”, conta. Até pouco tempo atrás ele se aventurava jogando diamantes – sim, de verdade – em um caixa de cascalhos, e em seguida aplicava a técnica do garimpo para reencontrá-los. Proibido de continuar seu showzinho por ordens médicas, Seu Cori ainda adora receber visitas, mas só para bater um papo.

Roy, durante bate-papo no Hotel Canto das Águas, em Lençóis. Foto: Felipe Mortara/Estadão

Por falar em turismo, foi como turista que outro simbólico filho da terra chegou por essas bandas – e acabou se tornando filho adotivo e afetivo da Chapada Diamantina. “Eu era americano do Texas”, conta Roy Funch, hoje com 65 anos e há mais de 35 em Lençóis. De aspecto jovial e extremamente vigoroso, veio parar por aqui em 1978 fazendo trabalho voluntário. “Sequer sabia que no Brasil se falava português”, recorda.

Apaixonado pela terra, formou família, teve cinco filhos na cidade e passou a lutar pela criação do parque nacional, em 1985, sendo seu primeiro diretor. “Sou biólogo de formação, mas em plena época da Guerra Fria e dos filmes de James Bond, os garimpeiros achavam que eu era espião. Afinal, qual outra razão para morar aqui?”. Um dos grandes desafios como diretor era se impor sendo estrangeiro. “É complicado falar, explicar tudo. Aqui não havia o conceito de ecologia, de preservação. Era só caça, garimpo e pobreza. Eu tinha que mudar essa cultura.” Hoje, conta feliz, “os filhos dos garimpeiros cuidam”.

Acabou virando guia para os primeiros turistas estrangeiros que vieram parar na Chapada. “No fim, foi o turista quem convenceu o nativo de que isso aqui era um lugar bonito”, diz. Também em 1985 publicou “Um guia para o visitante à Chapada Diamantina”, reeditado algumas vezes e até hoje o livro referência para quem quer desbravar os rincões dentro e fora do parque. Ele ressalta que a área protegida é de apenas 5% do total do que se entende por Chapada Diamantina.

Bom de papo, ele ainda guia visitantes em roteiros mais curtos. “Há cerca de 12 trilhas abertas. O parque todo é muito bem preservado, os guias cuidam muito bem. É o povo quem cuida, não o Ibama”, afirma. Como quem não quer nada, Roy, ou Rui, como gosta de ser chamado, desabafa sorrindo sobre tudo o que ainda se desconhece na Chapada Diamantina. “Tem muito potencial (para novas atrações), mas shhh, não espalha. A gente não quer gente em todo o parque”, brinca. “Não é para virar uma Disneylândia.”