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Gravatas e croatas

Adriana Moreira

26 Novembro 2013 | 13h19

MR. MILES*

O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO

Nosso impávido viajante viu-se obrigado a calçar as botas com grampões que usa para escalar picos nevados devido à inesperada nevasca que cobriu a Inglaterra e, particularmente, o Condado de Essex, nos últimos dias. Feliz com o que chamou de “reação dos céus contra o “global warming”, mr. Miles escreveu-nos a bordo de um single malt, aos pés da lareira e ao lado de Trashie, sua sempre querida raposa das estepes siberianas. Aproveitou para enviar um grande abraço aos leitores que curtem sua página no Facebook (facebook.com/milesestadao) e para convidar os que ainda não estiveram nessa página a visitá-la. Unfortunately, ainda não inventaram o scotch virtual. Caso contrário, eu os receberia a todos com uma dose generosa.”

A seguir, a carta da semana:
Prezado mr. Miles: o senhor poderia me dizer se a gravata ainda é um acessório obrigatório na Europa, para onde estou viajando? Aliás, de onde veio este hábito estranho?
João Marcelo Cançado, por e-mail


“Well, my friend: leve sempre pelo menos uma, just in case. Aquilo que você chama de estranho hábito já não tem o vigor de antigamente, mas, of course, há diversos lugares onde o uso do curioso complemento é exigido e inúmeros outros onde ele será, at least, bem-vindo. Como é de conhecimento dos leitores, sou de um tempo onde o uso da gravata era tão disseminado que, in fact, sinto-me quase despido se não a visto. Olhando por outro prisma, however, usar uma tira de tecido – não importa quão valioso e bem estampado seja ele –, pendurada ao pescoço é tentar assemelhar-se a um cão com a língua de fora. Don’t you agree?
O costume de portar panos sobre os ombros é mais que milenar e derivou da necessidade do homem enxugar o suor de seu rosto durante o trabalho. Sir Alex Calmingham, um velho amigo gravatófilo capaz de executar todos os nós existentes com a destreza de um espadachim, relatou-me, certa vez, que os primeiros a tentarem dar status a esse adorno foram os romanos, com seu primitivo focale. A moda não pegou. E vejam a ironia: foi justamente de uma linhagem de reis cujos pescoços acabaram cortados pela guilhotina que derivou a moda do uso da gravata. O precursor foi Luís XIV, da França. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o chamado Rei Sol viu-se diante de um batalhão de mercenários croatas a seu serviço e encantou-se com uma espécie de cachecol de linho e musselina usado pela tropa. Pediu, então, aos reais alfaiates que lhe produzissem lenços à moda croata (croate, em francês), de onde derivou a palavra cravate. A Croácia (Hrvatia, em croata), é, portanto, a pátria da gravata, embora seus cidadãos gostem mesmo é do modelo tipo toalha de cantina nas cores azul, vermelho e branco, as mesmas que estampam sua bandeira nacional.
Luís XIV, therefore, foi apenas uma espécie de divulgador do acessório entre as cortes europeias, que, como sempre, acabaram sendo copiadas pela burguesia e assim alcançaram os dias de hoje. De minha parte prefiro a bow-tie (N.da R.: gravata-borboleta), que leva a grande vantagem de jamais mergulhar no prato de sopa. Mas, no dia a dia, pratico a gravata tradicional com um sóbrio nó de Windsor. O curioso, fellow, é que a gravata acabou se tornando uma espécie de símbolo da cultura ocidental. Povos que usam túnicas, sarongues ou galabeias – entre outros tantos trajes para nós exóticos –, jamais se vestem à maneira ocidental envergando jeans e camiseta. A forma que encontram de aproximar-se de nós é através do uso da gravata. Uma história muito enrolada, isn’t it?”

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.
ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E
16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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