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Gravatas e croatas

Tania Valeria Gomes

11 Fevereiro 2009 | 11h42

Nosso impávido viajante viu-se obrigado a calçar as botas com grampões que usa para escalar picos nevados devido à inesperada nevasca que cobriu a Inglaterra e, particularmente, o Condado de Essex, nos últimos dias. Feliz com o que chamou de “reação dos céus contra o global warming“, mr. Miles escreveu-nos a bordo de um single malt, aos pés da lareira e ao lado de Trashie. Aproveitou para enviar suas apologies aos muitos argentinos que se sentiram ofendidos com a brincadeira que fez sobre a Guerra das Falkland, dizendo however, que aceita, em troca qualquer chiste portenha. ” If you can do it, of course“.
A seguir, a carta da semana:

Prezado mr. Miles: o senhor poderia me dizer se a gravata ainda é um acessório obrigatório na Europa, para onde estou viajando? Aliás, de onde veio este hábito estranho?
João Marcelo Cançado, por email

Well, my friend: leve sempre pelo menos uma, just in case. Aquilo que você chama de estranho hábito já não tem o vigor de antigamente, mas, of course, há diversos lugares onde o uso do curioso suplemento é exigido e inúmeros outros onde ele será, at least, bem-vindo. Como é de conhecimento dos leitores, sou de um tempo onde o uso da gravata era tão disseminado que, in fact, sinto-me quase despido se não a visto. Olhando de outro prisma, however, usar uma tira de tecido — não importa quão valioso e bem estampado seja ele —, pendurada ao pescoço é tentar assemelhar-se a um cão com a língua de fora. Don’t you agree?
O costume de portar panos sobre os ombros é mais que milenar e derivou da necessidade do homem enxugar o suor de seu rosto durante o trabalho. Sir Alex Calmingham, um velho amigo gravatófilo capaz de executar todos os nós existentes com a destreza de um espadachim, relatou-me, certa vez, que os primeiros a tentarem dar status a esse adorno foram os romanos, com seus primitivos focale. A moda não pegou. E vejam a ironia: foi justamente de uma linhagem de reis cujos pescoços acabaram cortados pela guilhotina que derivou a moda do uso da gravata. O precursor foi Luis XIV, da França. Durante a Guerra dos Trinta Anos, o chamado Rei Sol viu-se diante de um batalhão de mercenários croatas a seu serviço e encantou-se com uma espécie de cachecol de linho e musselina usado pela tropa. Pediu, então, aos reais alfaiates que lhe produzissem lenços à moda croate (croate, em francês), de onde derivou a palavra cravate. A Croácia (Hrvatia, em croata), é, portanto, a pátria da gravata, embora seus cidadãos gostem mesmo é do modelo tipo toalha-de-cantina nas cores azul, vermelho e branco, as mesmas que estampam sua bandeira nacional.
Luiz XIV, therefore, foi apenas uma espécie de divulgador do acessório entre as cortes européias, que, como sempre, acabaram sendo copiadas pela burguesia e assim alcançaram os dias de hoje. De minha parte prefiro a bow-tie (N.da R.: gravata-borboleta), que leva a grande vantagem de jamais mergulhar no prato de sopa. Mas, no dia a dia, pratico a gravata tradicional com um sóbrio nó de Windsor. O curioso, fellow, é que a gravata acabou se tornando uma espécie de simbolo da cultura ocidental. Povos que usam túnicas, sarongues ou galabéias — entre outros tantos trajes para nós exóticos —, jamais se vestem à maneira ocidental envergando jeans e camiseta. A forma que encontram de aproximar-se de nós é através do uso da gravata. Uma história muito enrolada, isn’t it?

COMENTÁRIOS SOBRE A COLUNA:


Caro Mr Miles,

Como bom anglófilo que sou, a ponto de não dispensar meu bom e fiel guarda-chuvas Brigg antes de sair de casa nesta chuvosa paulicéia, gostei muito do seu comentário sobre a gravata. Tenho algumas da Turnbull & Asser, a loja que fornece para o príncipe de Gales.

A propósito, enganchando com o que você disse no final da sua coluna, os orientais procuram ser até mais realistas do que o rei: veja os japoneses, que, após a 2ª Guerra Mundial, passaram a se vestir como os londrinos, a ponto de chamarem o terno ou costume de sebiro – uma corruptela de Saville Row, a rua dos mais famosos alfaiates britânicos… Ou seja, para os elegantes japoneses, um costume só seria bom de verdade se fosse feito (ou ao menos inspirado) em Londres!

Best regards,

Marcello Borges

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Dear Mr. Miles,

Notei em sua coluna de hoje, em que aparece ao espelho, dando o nó windsor na gravata, que está bem mas jovem do que nas fotos habituais. Será que aproveitou a última viagem ao Brasil para fazer um lifting e agora se recupera ao pé do fogo em sua velha Essex, bebericando single malt na companhia da Trashie e jogando a culpa no global warming?…

By the way, qual a sua opinião sobre o “turismo da cirurgia plástica” promovido na Malásia, no Brasil e outros destinos exóticos?

Parabéns pela coluna!… adoro seus textos!

Um abraço,
Vera Passos