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Histórias de quem percorreu o Caminho de Santiago

Adriana Moreira

09 Outubro 2015 | 21h26

Flavia Alemi, especial para o Estado

O estímulo para submeter corpo e mente a um desafio tão penoso como os Caminhos de Santiago vai desde a busca pela redenção dos pecados até o turismo puro e simples, mas, no final, o que realmente volta na mochila é a sensação da descoberta. Descoberta de lugares, descoberta de pessoas, descoberta de comidas, cheiros, sensações e, principalmente, a descoberta de si mesmo.

O francês André Gide uma vez escreveu que “para se descobrir novas terras, deve-se estar disposto a perder a terra de vista por um longo tempo”. E foi nos 800 quilômetros do Caminho de Santiago de Compostela que a pedagoga Meire Ortiz tentou encontrar respostas para algumas questões de vida. Mas isso foi apenas um nicho da imensa bagagem que ela trouxe de volta ao Brasil.

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“É um tempo de reflexão, de entrega. Você passa por uma porção de coisas que te levam a fazer uma peregrinação dentro de si mesmo”, explica Meire. Em 2002, ela lutava contra uma síndrome do pânico que não foi devidamente curada e, depois de ler sobre o Caminho de Santiago no jornal da escola de seu filho, decidiu se preparar para a jornada. Caminhadas, pesquisas e compras depois, embarcou rumo à Espanha junto do marido, Roberto.

A maior surpresa de Meire foi a sensação de já ter estado em cada um daqueles municípios antes, quase como um déjà-vu histórico. Até mesmo pessoas que ela nunca havia conhecido lhe pareciam familiares. Por fim, encontrou as respostas que procurava: “Estavam todas dentro de mim”.

Lista da bota. Inspirada no filme ‘Antes de Partir’, no qual os personagens de Morgan Freeman e Jack Nicholson elaboram uma lista de atividades que gostariam de fazer antes de morrer (ou ‘bater as botas’), a fonoaudióloga Juliana Algodoal decidiu, aos 45 anos, fazer a sua própria. E percorrer o Caminho de Santiago foi logo para a primeira posição.

“As pessoas me falavam coisas como ‘espero que você encontre o que está procurando’”, relata Juliana. “Mas eu nem estava procurando nada, eu apenas gosto de desafios. Porém, o Caminho me tocou de tantas formas, do ponto de vista pessoal, que acabei aprendendo algo valioso: existe uma saída para tudo”.

Além do ensinamento, Juliana trouxe de volta do caminho francês uma lista global de amigos. O casal Mike e Olivia, ele escocês, ela espanhola, até já se hospedaram na casa de Juliana quando vieram visitar o Brasil. No grupo do Facebook, uma mexicana, um francês, uma alemã, um coreano, uma dupla de neozelandeses, todos unidos por Santiago. “Formamos uma família”, diz Juliana.

Solidariedade. Aos 15 anos, quando leu ‘O Diário de Um Mago’, de Paulo Coelho, Sabrina Paschoal se encantou com a quantidade de experiências transcendentais que fazer a peregrinação do Caminho de Santiago poderia proporcionar. Passados 20 anos, a obsessão, até então adormecida, despertou com ferocidade numa simples conversa de bar com uma amiga. Dali um mês, Sabrina já aguardava seu voo para a Espanha no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.

Sabrina quis fazer o Caminho de bicicleta e ‘dificuldades’ é uma palavra com pouco impacto para definir o que ela passou. Logo no primeiro dia, sua bicicleta não chegou e a obrigou a sair muito tarde do albergue. A rota de bike vai pelas rodovias da Espanha, mas a consultora de RH preferia o caminho dos que iam a pé. Resultado? Uma queda feia que lhe custou um corte na testa e muito sangue. No resto da jornada, como o preço para despachar a bicicleta era muito alto e Sabrina não queria simplesmente abandonar aquele investimento de milhares de reais no trajeto, carregou a magrela nas costas.

Pela ajuda e apoio que recebeu, tanto dos peregrinos quanto dos moradores, Sabrina mudou a forma de encarar a vida. “A gente precisa de muito menos coisas do que tem. Precisamos do outro, do contato, do carinho”, diz. Superar os problemas que encontrou em Santiago parece ter aguçado a necessidade de adrenalina dela. Desde o Caminho, ela tomou gosto por viagens que fogem do comum e optou pela empreitada dos Sete Cumes: escalar as montanhas mais altas de cada continente. Até agora, já chegou ao topo de três.

Turismo. O arquiteto João Ferreira do Ó não fez o Caminho para pagar penitências ou promessas, mas para conhecer melhor a Espanha e sua cultura. Depois de fazer apenas a reta final do trajeto, em 2007, que somou cerca de 250 quilômetros, João resolveu elevar o nível do desafio e, dois anos depois, pegou a rota do caminho francês – mesma rota que os repórteres do Estado estão percorrendo.

“O caminho é alegre e cheio de atrações. A cada dia são pessoas diferentes que você conhece, histórias distintas e algumas situações que o só o Caminho oferece. É uma experiência muito rica”, detalha. Até agora, João ainda não sabe se Santiago mudou seu jeito de ser, mas está disposto a descobrir. Como? Caminhando pelas outras trilhas que levam a Santiago de Compostela.