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Honduras pode esperar

Tania Valeria Gomes

26 Outubro 2009 | 19h15

Conforme anunciado na semana passada, nosso indomável viajante, na companhia de sua mascote Trashie, rumaram para Honduras, aonde, sem mais delongas buscaram hospedagem na Embaixada do Brasil. Os trajes elegantemente britânicos e a notória polidez de mr. Miles foram determinantes para que as portas se abrissem. No interior da representação, o correspondente britânico deu com uma “disgusting” bagunça, mas, com delicadeza, obteve a ajuda de um serviçal que tornou habitável um pequeno cômodo onde instalou seu sleeping bag. Fez questão de cumprimentar o embaixador brasileiro (que mal lhe deu atenção) e, segundo nos informa, não sentiu os efeitos de qualquer tipo de radiação ou interferência química relatada, recentemente, pelo presidente deposto Manoel Zelaya.
“O único incômodo remarkable — conta-nos mr. Miles — foi o odor amargo da promiscuidade que definitivamente não combina com o aroma da tintura que o senhor Zelaya usa em seus bigodes”. Aliás, ao cumprimentar o ex-presidente, foi por ele inquirido, com certa desconfiança: “Quem é o senhor?” — estranhou Zelaya. “Apenas um hóspede. Just like you” — respondeu-lhe. Nosso viajante ainda propôs ao bigodado político uma partida de xadrês para fazer o tempo passar.
Ao que parece, infelizmente Zelaya só joga damas — o que levou mr. Miles a passar.
Na manhã seguinte, não sem antes agradecer a hospitalidade, o viajante britânico embarcou em um “amazing” ônibus interurbano e, com duas simpáticas galinhas empoleiradas em seus joelhos (as quais Trashie ignorou fleugmaticamente), viajou até a cidade de Tela, na orla do Mar do Caribe. Conseguiu um quarto no Hotel Rio Mar e, sem muito esforço, localizou seu velho amigo Don Ardon, que já o conduziu, em outras ocasiões ao Parque Nacional Marino Punta Sal — uma belíssima confluência de praias desertas e florestas repletas de aves exóticas.
O Parque, agora, chama-se Jeannete Kawas. O próprio Don Ardon — que mantém um serviço de barcos na região —, fez questão de levar nosso viajante ao pequeno santuário, bem cedo na manhã seguinte. Mr. Miles contemplou a beleza da praia de Cocalito mas dedicou o resto de seu dia a caminhar pela floresta com seu binóculo em punho, avistando aves e fazendo anotações em seu pequeno caderno.
Como retornou à praia com um ligeiro atraso apesar das recomendações, nosso correspondente enfrentou altas ondas em sua viagem de volta à Tela. Para seu alívio, Don Ardon é um marinheiro experiente e não mostrou qualquer sinal de preocupação. Trashie, por sua vez, desengoliu tudo o que havia comido durante o dia.
Quanto aos leitores que têm perguntado sobre a conveniência de visitar Honduras — que, não fosse a crise política, pouco seria lembrada —, mr. Miles julga prudente que qualquer viagem exploratória seja postergada até o encerramento das tensões atuais. “O momento não é adequado, my friends. Nesses periodos de ânimos exacerbados, os seres de alma autoritária saem às ruas como baratas em dias de calor. E podem ser quite unpleasant. Besides, existe sempre a possibilidade do reestabalecimento do toque de recolher, o que torna os dias desgradavelmente curtos. Confesso que tive alguma sorte, além da vantagem de conhecer o país anteriormente.
Há outros países muito semelhantes aqui nas imediações. Opte por um deles. Honduras, believe me, sempre pode esperar.