Irlanda X Espanha: duelo de low-costs na Europa
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Irlanda X Espanha: duelo de low-costs na Europa

Felipe Mortara

28 Setembro 2012 | 20h54

 

Embarque ao amanhecer no voo da Vueling, em Granada rumo a Barcelona. Foto Felipe Mortara/AE

Felipe Mortara

Logo após resolver que começaria as férias na minha querida Itália decidi que daria uma esticada na Espanha, país que sempre fui louco para conhecer. Percebi que para os trechos que se encaixavam nas minhas datas e destinos, as empresas a buscar eram a irlandesa Ryanair e a espanhola Vueling, braço low cost da Iberia. No fim, voei de Roma a Sevilha pela Ryanair e de Granada a Barcelona pela Vueling. Veja a comparação de cada etapa em cada companhia.


Compra online

Ryanair: Como a Ryanair era a única que voava de Roma a Sevilha (1.657 km) – meu primeiro destino – optei por ela. Saí do site dos buscadores Skyscanner e eDreams, que cobram comissão, e fui para o da companhia. O preço apontado na primeira busca foi de € 30,74. Daí vieram as infinitas taxas. Taxa de check-in online: € 6. Taxa administrativa: € 6. Taxa de passageiro (what!?!): € 2.  Isso sem falar na fabulosa taxa (sim, € 25!, quase a tarifa original) para despachar uma mala (até 15 quilos), já que o volume para levar na cabine tem como limite 10 quilos dentro das medidas 55 cm x 40 cm x 20 cm. E ele são MUITO chatos com isso.  Total total: € 69,99.

Vueling: O trecho Granada a Barcelona (683 km) custava inicialmente € 18,59. Que vengan la tajas! ‘Tajas y impostos’: € 26,40. Taxa de mala despachada  € 14. E o mais surpreendente: taxa por pagar com cartão de crédito € 10. (Como será que eles queriam que eu pagasse? Com cheque? Nota promissória?!) Total total:  € 68,99

 

Aeroportos

Ryanair:  Ah, a distância da cidade até o aeroporto de Ciampino, onde (só) a Ryanair opera… Levei duas horas desde o centro de Roma até lá numa quinta-feira de manhã muito cedo e gastei uns  € 5, entre dois metrôs e um ônibus especial, que sai da estação Anagnina até o aeroporto. Em Sevilha só há um aeroporto e um único ônibus a € 4 para a área mais central. Dali é preciso pegar outros até o centro histórico.

Vueling: Do centro de Granada até o aeroporto há um ônibus especial que passa a cada 40 minutos e custa  € 2,80. Os horários afixado nos pontos de ônibus são precisos. Às 5h15 da manhã levamos menos de 30 minutos até o terminal. A Vueling voa para o aeroporto de El Prat, que fica a 40 minutos de ônibus da Plaza Catalunha. A Ryanair voa para Girona, distante quase duas horas da cidade.

 

Check-in

Ryanair: Uma vez em Roma, tive de fazer o check-in online até quatro horas antes do voo e garantir que levaria a confirmação impressa, caso contrário seria obrigado a pagar mais € 35. Além disso, por não ter passaporte europeu, precisaria lembrar de levar meu documento para ser checado e carimbado num guichê especial. Caso contrário, claro, não poderia embarcar.  Não bastasse ter feito o check-in online e pago € 25 para ter o direito de despachar, ainda tive de encarar uma hora de fila até chegar ao balcão de check-in.

Vueling: Deus ajuda quem cedo madruga. Nenhuma fila no check-in, atendente bem humorado até mesmo às 5h55 da manhã. E tolerou 1,5 quilo de excesso de bagagem. Sem fila para carimbos extras, provavelmente por ser um voo doméstico.

 

O voo

Ryanair: Sem assento marcado o embarque fica mais tumultuado, com uma longa fila no portão. A funcionária da Ryanair que recolhe os cartões de embarque insistia com uma cigana que a sanfona dela não cabia no suporte de ferro que estabelece o volume limite. E a moça tentando espremer o instrumento, o casaco, o chapéu. A funcionária estava irredutível. Já dentro do avião fui bombardeado por todos os lados com anúncios: nas portas dos bagageiros enormes propagandas da marca de malas Eastpak (parabéns Eastpak, eu lembrei da sua marca) e publicidade de carro colada na mesinha à frente. À bordo, água, refrigerante e salgadinhos – para vender, of course. Não vi ninguém comprando. A aeronave, um velho Boeing 737, chacoalhava bastante e em alguns momentos no voo de 1h45 parecia bem instável. Alguns passageiros sentiam medo. O piloto pousou meio estranhamente.

Vueling: Mesmo sem assento marcado, parecia que as pessoas não tinham pressa para embarcar e a fila tinha tamanho razoável. O espaço para as pernas era maior e o encosto reclinava bastante. O atendimento a bordo foi gentil e a aeromoça não tentou vender água – me trouxe um copo cheio. Apesar de uma forte turbulência o piloto conseguiu manter a estabilidade, mesmo a aeronave sendo um pouco velha.

 

Conclusões

Levando em conta que as passagens foram compradas num intervalo de dois dias e que o trecho Roma-Sevilha (1.657 km) é bem superior ao percurso Granada-Barcelona (683 km), o custo por quilômetro voado na Ryanair é bem mais em conta que na Vueling.

A Ryanair ainda é a mais pura definição de voo low cost, mas com a isso traz todos os clichês do serviço ‘mínimo’ e da responsabilidade total do passageiro, caso contrário, ele é penalizado em euros por isso. A Vueling cobra mais caro o quilômetro, mas a sensação não é de estar voando de favor, como na Ryanair. Os €  10 cobrados pelo uso de cartão de crédito na Vueling são ridículos e não parecem ter justificativa.

Para usufruir do menor custo é necessário tempo de sobra, pois a Ryanair mantém seus aeroportos afastados das zonas centrais.  A Vueling, operando em aeroportos centrais e oferecendo um serviço mais humano, pode cobrar a mais por isso.

O check-in da Ryanair é desorganizado, com muitos voos centralizados em apenas dois ou três guichês. E quando o horário limite se aproxima, uma funcionária sai caçando os passageiros na fila. Ou seja, não precisa chegar duas horas antes do voo como pedem. Cada grama de peso é contado e parece que o atendente está esperando que o peso ultrapasse os 15 quilos a que você tem direito só para ver sua cara de pânico ao saber que terá de pagar mais uma taxa. Na Vueling parece haver uma tolerância e uma dimensão menos exploratória do serviço, ainda que no fundo o funcionário deva mesmo querer atender você logo para passar ao próximo passageiro.

De um modo geral, a Ryanair oferece o mínimo: transportar o passageiro de uma cidade a outra no menor tempo possível, deixando de lado qualquer tipo de conforto e gentileza. Já a Vueling opera com um ritmo mais salubre e não esquece em momento algum que está lidando com um cliente. E cobra um pouco a mais por isso.