Justiça, plata, liberdade, plomo. Carta de uma viajante a um mundo bárbaro
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Justiça, plata, liberdade, plomo. Carta de uma viajante a um mundo bárbaro

Adriana Moreira

18 Novembro 2015 | 12h08

O mundo, mundo, são muitos em um só. Foto: Neil Hall/Reuters

O mundo, mundo, são muitos em um só. Foto: Neil Hall/Reuters


Por Bruna Toni

Era um início de mais uma noite quente de outubro na Flórida. Estava em Lakeland, a maior cidade do Condado de Polk, na parte central do Estado. Lá pelas tantas, o comércio comum já havia fechado as portas, mas duas lojas sobreviviam firmes sob a luz baixa.

Uma delas vendia tentadoras revistas em quadrinhos e super-heróis de brinquedo. Meus colegas americanos, e digo americanos no plural – vinham da Colômbia, do México, da Argentina e do Brasil -, se perderam por uma boa meia hora folheando e comprando seus produtos. Eu, que por falta de experiência anos atrás não sou tão próxima ao gênero, apenas os contemplei e sai para fotografar mais um pouco do movimento na rua.


Plata o plomo? Plata o plomo? – dizia em tom desafiador por brincadeira um jovem e robusto rapaz ao colega, em frente à loja ao lado.

Me interessei. Fazia apenas alguns meses, havia devorado a polêmica série Netflix.

Narcos? – perguntei.

Sim, você conhece?

Falamos sobre Wagner Moura (que ele não sabia ser brasileiro) e contei a opinião dos amigos colombianos (que ainda se divertiam dentro da loja de quadrinhos) sobre a série. Da parte dele, soube que era palestino, de sua mudança para os Estados Unidos e sobre parte de sua família que ele só sabe estar no Brasil, não sabe onde.

Nos despedimos.

Tchau! – surpreende o amigo dele, norte-americano, que nos havia jurado não saber uma só palavra em português.

*

Era um fim de manhã em um outlet qualquer da Flórida central. Muito menos do que quadrinhos, entendo de marcas e compras. Por isso, meu único interesse por ali era o de sempre em viagens: tentar levar na mala um vício adquirido, as camisas de times de futebol locais.

Olá, você tem uma camisa do Orlando City?

Sim, qual o seu tamanho?

Experimentei o M. Um roxo maravilhoso que fiquei tentada a comprar. Mas, na casa dos US$ 75, fiquei mesmo apenas na tentação. Enquanto olhava no espelho para guardar na lembrança a imagem, o vendedor puxou delicadamente meu braço.

“Justiça e… Liberdade” – disse ao ler a tatuagem que carrego no braço esquerdo.

Aham! Ainda bem que conseguiu ler, está escrito certo então – brinquei.

Sim, está escrito em árabe.

De onde você é?

Marrocos. Você é árabe?

Não sou – apesar de, na minha mente, saber que com um simples lenço posso me reivindicar como tal.

Então…

– Essa tatuagem é uma forma de dizer que estou ao lado da luta por liberdade, por justiça. Uma forma de desejar isso ao mundo inteiro. De certa forma, penso que quando o Oriente Médio estiver diferente,  o mundo também estará.

Ele sorri dentro de instantes de silêncio. Pega em minha mão.

Obrigado por isso.

*

Era início de noite de sexta-feira no Brasil, meio de noite na França, de onde chegavam as piores notícias. Acompanhando da redação cada nova informação, ainda confusas, minha mente retornava insistentemente a esses dois diálogos.

Viajar tem dessas coisas. Você encontra pessoas. Você encontra ideias. Era minha primeira passagem pelos Estados Unidos. E eu apenas posso dizer que encontrei não norte-americanos, mas gente do mundo todo. Gente com histórias e raízes pelo mundo. Ideias que transcendem um lugar fixo, um Estado, uma religião, um sistema econômico. Encontros em línguas distintas dividindo um mesmo espaço.

Viajar tem dessas coisas. Dessas coisas que nos faz perceber que o caminho, mundo, não é mais intolerância, injustiça, prisão. Não é mais e mais fronteiras. O mundo, mundo, são muitos em um só. É preciso entender. É preciso viajar. Para fora e, sobretudo, para dentro.

Lakeland, Flórida

Em Lakeland: ela é mexicana, ele nasceu nos EUA. Do lado de fora, uma brasileira. E um palestino