La garantia soy yo
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La garantia soy yo

Felipe Mortara

08 Fevereiro 2013 | 16h46

 

Cliente confere a autenticidade do uísque. Afinal, estamos no Paraguai. Foto: Felipe Mortara/Estadão

Felipe Mortara

Un textiño sobre cuempras en Ciudad del Este precisa empezar con un portuñol bien picareta, no és verdad? Afinal, quien nunca escuchou hablar de la Puente de la Amistad y de los descuentos de Paraguay? Bueno, yo la cruzei pela primeira vez no fim del año passado. Em bom português: a experiência antropológica começa já no lado brasileiro, a sete quilômetros de Foz do Iguaçu. E volta dentro da mala.


As grades da ponte são mais esburacadas que as ruas de São Paulo no mês de março. Por ali vêm e vão caixas de contrabando, majoritariamente cigarro. Não, não fui atrás de fumo de nenhum tipo. Como duas semanas antes havia perdido um querido par de óculos escuros Ray Ban (afinal, esse texto precisava de algum clichê), estava empenhado em garimpar outro. De preferência, idêntico.

Chovia torrencialmente há umas duas horas. Uma vez ultrapassada a placa de fronteira e atravessado o Rio Paraná, passamos sem problemas pelo paraguaio guichê de imigração. Não havia guarda-chuvas que permitisse um passeio a céu aberto. La solución? O ‘nuevo’ Shopping del Este, por supuesto.

Na entrada recebi um adesivo, colado no meu peito, que parecia me identificar: este és brasileño, tiene la plata. As mais de 40 lojas são enormes, e a maior parte são espécies de Duty Free Shops multimarcas e produtos que vendem de celular a uísque, de camiseta da Abercrombie a boneco do Toy Story. Da mais reluzente guitarra Fender à mais reluzente torneira.

Os preços são baixos, explicam os vendedores, porque não há taxas ou impostos. Meus primeiros exemplos. Garrafa de whisky Glenmorangie, que na Adega Brasil custa, no mínimo R$ 124, estava por US$ 19,50, o equivalente a R$ 39, na loja Macedônia. Já um creme hidratante Victoria’s Secret, vendido por R$ 35 na Nova Shop Online, era encontrado por US$ 8,80 (R$ 17,50) na La Petisquera, ou seja, pela metade do preço. 

‘Uepa, voy me dar bien en este lugar’, pensei.

Tudo indicava que faria um negócio da China sem ter que percorrer nem um quinto da distância entre São Paulo e Pequim. Bastava agora encontrar meus óculos. Entrei cego atrás do Ray na primeira loja e caprichei no portuñol:

– Hola, que tal? Me gustaria unos óculos escuros Ray Ban con armación de tortuga. Tiene?  

Falando um português perfeito, como todos os outros vendedores, o danado me respondeu.

– Claro amigo, temos um monte de óculos bacanas para você. Vou te mostrar.

Mas não tinha o modelo que eu queria. Claro que tentou me empurrar todos os outros, inclusive um modelo à la Gangnam Style. Parti para a loja ao lado, expliquei de novo o que eu queria e, de novo, aguentei  o que a vendedora queria me empurrar. Estava irredutível. 

Após entrar em mais de cinco lojas, já perto de desistir, encontrei o que procurava. Bom, mais ou menos. Digamos que era similar, pero todo bien, afinal eu estava no Paraguai. De material parecido, a armação era super dobrável e ficava bem pequena dentro da caixinha diminuta. As lentes de agora eram espelhadas demais, mas beleza. O conjunto da obra, olhando bem no fundo, era parecido com o que eu queria. O preço? US$ 150 ou R$ 300. Negócio cerrado, pero todavia necesitaba de lentes con grales.

De volta a São Paulo, a caminhar pelo centro, mais precisamente na Av. São João. Deveria levá-lo a uma ótica de confiança, mas míope que sou, entrei na primeira que vi.  O velhinho que me atendeu, se apresentando como José me pareceu simpático e cobrou R$ 140 para instalar lentes escuras com grau em minha nova aquisição. Em sua vitrine vi um modelo igual ao que buscava no Paraguai. O preço? R$ 300.

Dali uma semana, busquei meu primeiro par de óculos escuros com grau da vida. Saí contente e enxergando tudo com as lentes novas na luminosidade intensa de um meio-dia de verão. Só quando cheguei em casa percebi que Seu José não havia devolvidoas lentes originais, afinal eram Ray Ban. Já passei lá umas 4 vezes desde então e o senhorzinho tem sempre uma desculpa. E todavia continuo tentando.  Conclusión: yo estive en Paraguay, hombre, mas não precisa ir até lá para negociar com picaretas.