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Legisladores viajantes

Tania Valeria Gomes

13 Maio 2009 | 11h45

Nosso célere viajante está em Sidi Bou Said, na Tunisia por duas razões bem distintas. Uma delas, “de cunho militar”, segundo suas palavras, para celebrar o aniversário da derrota imposta ao Afrika Korps, naquele país, pelas tropas de Montgomery, no meio das quais ardia de calor um certo Lieutenant Miles. O outro motivo — porque ninguém é de ferro —, foi aproveitar o já generoso calor levantino para deliciar-se nas águas do Mediterrâneo. Miles, sempre discreto, não revela se está ou não na companhia de sua famosa amiga tunisina, a atriz Claudia Cardinale.De lá, ele enviou a correspondência da semana:

Mr. Miles: todo mundo sabe que você é um defensor radical do direito de viajar. Agora, por pressão popular, nosso Congresso “cortou” o festival de viagens que nossos representantes faziam, ofereciam para seus amigos e, em alguns casos, até vendiam. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Dr. Paulo Mello Savoia, por email

Well, my friend, trata-se, again, de um convite para que eu me intrometa em assunto interno da política brasileira, ingerência que sempre me soa indelicada. However, fiquei sobejamente surpreso ao saber que vossos representantes conquistavam, junto com o mandato, essa extraordinária regalia. Compreendo agora porque há tantos candidatos nas eleições brasileiras…
Unfortunately, não tenho tempo de acompanhar o desempenho da Câmara dos Comuns em Brasília, mas sou levado a supor que, tendo viajado abundantemente mundo afora, vossos legisladores são todos homens muito cultos, com vasta referência internacional. Devem falar, of course, vários idiomas e possuir notáveis bibliotecas com relatos de soluções bem sucedidas em outras nações nas áreas de saúde, educação, cultura, saneamento, obras públicas etc. Am I right?
Por outro lado, a sua noticia me dá conta de que o incomum benefício foi cortado por pressão popular. O que isto significa? Estariam os nobres deputados e senadores brasileiros desprezando a infinita sabedoria que o conhecimento de outros povos, costumes e idéias poderia lhes proporcionar? Oh, my God! Será possível que, ao invés de utilizar o mais valioso dos benefícios para adquirir estofo e ilustração, os egrégios representantes optaram por banhar os sufrágios de seus eleitores nas águas tépidas do Caribe? Ou por arriscar seu estipêndio e seus jetons nas mesas de jogo de Las Vegas?
It would be disgusting, isn’t it?
Viajar, como já disse e repeti, não é o ato de locomover-se de um lugar para o outro. É, em minha modesta opinião, uma forma de arte, que envolve sonho, bom-senso, estudo, observação e reflexão. Aqueles que viajam às próprias expensas têm até o direito de sonhar mal, estudar pouco, observar errado e fazer reflexões pouco brilhantes. At least, eles estão pagando por seu próprio prejuizo.
Já os que ganham esse direito às custas de toda uma nação, deveriam usá-lo apenas e sempre em proveito dela mesma.
E se assim o fizerem estarão auferindo, de qualquer maneira, todo o engrandecimento pessoal reservado aos viajantes. Don’t you agree?