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Mesmo lugar, viagens diferentes

Tania Valeria Gomes

10 Dezembro 2009 | 11h30

Nosso incontrolável viajante, sempre em busca de temperaturas mais agradáveis, foi capturar alguns raios de sol na ilha de Lanzarote, onde mantém residência o seu velho amigo José Saramago. Da paisagem lunar dessa ilha da Macaronésia, envia-nos a correspondência da semana.

Mr. Miles: passei cinco dias absolutamente perfeitos em Nova York. No avião, durante o vôo de retorno, sentei-me ao lado de um casal que havia ficado na cidade exatamente no mesmo período e só tinha reclamações. Como é que isso pode acontecer?
Flavia Pinho Grendi, por email

Well, my dear, fenômenos assim são da natureza das viagens. Cada uma delas, as you see, é uma experiência distinta e não basta estar no mesmo lugar, nas mesmas datas, para obter as mesmas sensações.
Perdoe-me entrar no delicado campo das hipóteses. Não a conheço e muito menos aos outros viajantes citados. Mas seu espírito, I presume, estava mais livre e aberto durante a permanência na Big Apple. Ou não: quiçá o casal mencionado tenha errado em suas escolhas desde o princípio. Imagine se a eles coube um hotel mal localizado, com atendentes desagradáveis, apenas para mencionar uma possibilidade inconveniente. Lembro-me que, certa vez, em Miami Beach, deram-me as chaves de um apartamento de um velho hotel art-déco. Quando abri a porta do aposento, havia, sobre a cama, a carcaça de um frango recém-devorado. Disgusting, isn’t it?
Pois, para muitos viajantes, um início desse tipo pode ser a marca de uma experiência definitivamente comprometida. Só com fairplay é que se altera a história de uma viagem que começa mal.
De uma certa maneira, my dear, o que difere a sensação de pessoas que visitam um mesmo lugar ao mesmo tempo é o mesmo processo que leva dois companheiros de bar a reações distintas no final da noite. Ambos podem ter ingerido a mesma quantidade do mesmo destilado e, muitas vezes, enquanto um deles termina a noite alegre e sonhador, o outro torna-se ranheta e macambúzio.
As pessoas, thank God, são apreciáveis e interessantes porque têm o condão de diferir umas das outras.
Em uma jornada a uma cidade tão grande e variada como New York, uma infinidade de outros fatores pode influenciar o resultado final. Imagine que você tenha tido a sorte de comer, todas as manhãs, muffins quentes e fresquinhos, enquanto seus companheiros de vôo lutavam contra beiguels produzidos na véspera. Imagine, as well, que você tenha visto um lindo espetáculo na Broadway, enquanto os outros, preocupados com as finanças, ficavam vendo o show da Ophra Winfrey na televisão. Suponha que, enquanto você passava aquela tarde inesquecível no MoMa, eles tenham optado por fazer compras na Canal Street e descobriram, tardiamente, que estavam pagando o dobro por produtos chineses igualmente disponíveis na rua 25 de março, em São Paulo ou no Saara, no Rio.
Mas, of course, estou apenas fazendo suposições. Talvez os roteiros tenham sido exatamente invertidos e, ainda assim, você tenha achado ótima a viagem – enquanto eles não gostaram do que viram.
Viajar, dear Flávia, é sempre uma experiência única e intransferível. Assim como degustar um vinho e apaixonar-se. É difícil não gostar. But it happens.