Na medina, um conto das mil e uma noites
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Na medina, um conto das mil e uma noites

Adriana Moreira

03 Dezembro 2013 | 01h00

Em Marrakesh ou Fez, a área mais antiga das cidades reserva uma apaixonante autenticidade. Perca-se por ali – e transforme-se em um personagem de sua própria história

MARRAKESH
No meio da rua, um homem tenta vender uma galinha. Ainda viva. A poucos metros, surgem cones gigantes de temperos. Na barraquinha ao lado, tâmaras. Uma infinidade delas. Não há como falar de Marrakesh sem falar de sua medina. Ao entrar na parte antiga da cidade, cercada por muros, a sensação é que pouca coisa mudou por ali desde a Idade Média.

Tudo remete ao cenário de um conto das mil e uma noites. A exceção fica por conta dos motoqueiros, que parecem fazer questão de atropelar turistas desavisados. Tome cuidado também com as bicicletas, que seguem a mesma lógica.


A regra por aqui é se perder pelo labirinto de ruas estreitas até encontrar a Praça Djemaa el Fna. O encantador de serpente, o homem do macaco amestrado, a mulher que faz tatuagem de henna… Todos estarão lá. Nem pense em se aproximar deles – muito menos bater uma foto – se não quiser desembolsar alguns dirhams.

A praça também é ponto de partida para explorar os souks, como são chamados os mercados de rua. Tudo aqui precisa ser negociado. No começo, fiquei meio sem graça, meio sem paciência, mas depois entrei no clima da encenação. O ato final é virar as costas e ir embora se o preço não agradar (há casos em que o vendedor, arrependido, corre atrás de você). Depois de muita pechincha, impossível não comprar um lenço, uma louça, uma bolsa. Fica difícil até de resistir às babuches, sapato de bico fino tradicionalmente usado por lá. Mas é preciso ter em mente que ela dificilmente terá outro papel em casa que de um souvenir de viagem.

De volta à praça, sempre ela, é hora de terminar o dia numa das barracas de comida típica, como tahines e cuscuz, que começam a ser montadas. Mesas, banquinhos, aromas. O lugar vira um restaurante a céu aberto.

Os músicos de rua também já estão a postos. O espetáculo vai até tarde da noite e é assistido por uma multidão que coloca, lado a lado, turistas e locais. Todos querem sentir o espírito dessa praça, que antigamente era o local de execução de criminosos e foras da lei. Um paradoxo em um lugar cheio de vida.

Ruas estreitas e cenários autênticos em Fez – Foto: Isadora Peron/Estadão

Fez. Outra medina famosa é a da cidade de Fez. Ali, as ruas são mais estreitas e os cenários parecem ainda mais autênticos do que em Marrakesh. Pelas mais de 10 mil vielas é possível esbarrar com artesãos talhando madeira ou operando uma máquina de tear. Os ofícios milenares estão todos ali.

O momento que mais impressiona é a visita a um curtume. Os tanques redondos escavados na terra, um ao lado do outro, formam um dos cartões-postais mais famosos do país (você com certeza vai se lembrar dali se assistiu à novela O Clone). Na entrada, ganha-se um ramo de hortelã para suportar o cheiro, que pode revirar estômagos mais sensíveis. / ISADORA PERON

BATE-VOLTA:

Casablanca – A primeira coisa que você precisa saber sobre Casablanca é que nenhuma cena do clássico estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman foi gravada ali. A segunda é que há uma cópia do Rick’s Café (rickscafe.ma) para os amantes de cinema não saírem de lá tão decepcionados. A grande atração local, no entanto, é a mesquita Hassan II, uma das poucas no país em que não muçulmanos são bem-vindos. Construída sobre o mar, é uma das maiores do mundo, com capacidade para 25 mil pessoas. Como de costume, há um espaço reservado para homens e outro para mulheres.

Rabat – Capital do Marrocos, lá vive o Rei Mohamed VI. O Palácio Real só pode ser avistado ao longe: o mais próximo da realeza que se chega é no Mausoléu de Mohamed V. Em frente está a Torre Hassan, única parte de uma mesquita que sobreviveu ao terremoto de 1755. Completam o cenário colunas de pedras trazidas de Volubilis. Outro clássico é a medina, diferente das de Fez ou Marrakesh. Apelidado de Bairro Andaluz, é cheio de casinhas brancas e azuis.

 

DELÍCIAS TRADICIONAIS:

Cuscuz – Feito à base de sêmola, é o prato nacional. Os marroquinos costumam comer na sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos, mas dá para encontrar a iguaria em todos os restaurantes. Para acompanhar, carne de vaca, de galinha ou de carneiro. O prato chega à mesa para ser dividido entre todos

Tahine – É o arroz com feijão do Marrocos, ou seja: o prato de todos os dias. Trata-se de um cozido feito em panela de barro, que mistura algum tipo de carne (exceto a de porco, proibida na cultura muçulmana), com legumes, azeitonas, ameixas, amêndoas… Não raspar o prato com o pão é quase um pecado

Tâmaras – Existem mais de 3 mil variedades de tâmaras. As barraquinhas espalhadas pelas medinas mostram dezenas de tipos e de preços. Símbolo da fertilidade, costuma ser usada em festas religiosas, como casamentos. Não deixe de prová-la fresca: o sabor é totalmente diferente da encontrada por aqui

Chá – O chá de hortelã é a bebida símbolo do país e costuma ser servido após as refeições ou para recepcionar convidados. Não é tomado em xícaras, mas em pequenos copos transparentes ou decorados. A bebida deve estar sempre quente e fazer espuma quando for servida. Normalmente, já vem (bem) adoçada