No caminho para Uyuni, uma trilha sonora peculiar
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No caminho para Uyuni, uma trilha sonora peculiar

Adriana Moreira

11 Dezembro 2009 | 16h32

Três horas de estrada de La Paz a Oruru. E a viagem nem começou. Ainda será preciso percorrer mais sete horas para chegar a Uyuni, porta de entrada para o famosos salar boliviano. Com segurança, conforto e muitas particularidades.
Antes de entrar no trem, monte seu kit básico. Se quiser comprar água nas barracas em frente será um bom negócio: a garrafa grande custa 5 bolivianos, enquanto a pequena dentro do trem sai por 8. Mas isso é só um detalhe. Para sobreviver a viagem, você precisará de um fone de ouvido.

Acredite: não há qualquer preconceito embutido nessa informação. Assim que o trem parte de Oruru, é ligada a televisão com um volume bem alto. Se não bastasse, há interferências no caminho, que causam todos os tipos de zunidos, ora em músicas típicas (com aquela flautinha peruana), ora em filmes hollywoodianos dublados em espanhol.
No começo da viagem, é até divertido. Ademais, você não estará prestando atenção no som, mas na paisagem que passa pela janela. Com apenas 10 minutos na estrada de ferro já é possível ver lagos cheios de flamingos. À medida que se avança, surgem campos verdes e depois, amarelados. Lagoas quase secas, minisalares. Campos imensos, montanhas e povoados que parecem esquecidos, no meio do nada. Além de um pôr do sol espetacular, como o da foto abaixo.

Pôr do sol no trem a caminho do Uyuni. Foto Adriana Moreira

Pôr do sol no trem a caminho do Uyuni. Foto Adriana Moreira

A essa altura da viagem, você já terá conversado com quase todas as pessoas de seu vagão, lido boa parte do livro que trouxe e até almoçado o pão com omelete e tomate servido com coca-cola ou fanta. É quando o chiado da televisão se torna realmente incômodo e você vai querer dar todos os bolivianos da sua carteira por um fone de ouvido.
Você pode tentar escapar, por algum tempo, para o ambiente calmo e com ar condicionado do vagão-restaurate. Vai usar o banheiro relativamente limpo. Mas, inevitavelmente, terá de voltar para seu assento.


Talvez o grupinho de seu vagão inicie uma pequena rebelião. Alguém se oferecerá para baixar o volume da TV, outro tentará desligá-la. Mas são medidas paliativas: quando menos se espera, lá está a telinha acesa, como se estivesse rindo da cara dos turistas impotentes diante de seu imenso poder. A não ser sacar, calmamente, seu fone de ouvido…

De qualquer forma, viajar de trem ainda é a melhor opção para ir e voltar do Uyuni. O ônibus semileito que sai de Uyuni diretamente a La Paz é até confortável, com direito a serviço de bordo, manta e travesseiro. Mas a viagem é sofrida: 12 horas, contra cerca de 10 de trem (considerando o caminho La Paz-Oruru). Nas cinco primeiras, se tem a sensação de estar em uma máquina de lavar roupas. A estrada de rípio, esburacada, desafia o sono. E ao chegar a seu destino, você encontrará sua mala coberta por uma grossa camada de poeira (e, logicamente, algumas das roupas também). Dá saudades da flautinha peruana.