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O enigma do guarda-chuvas

Tania Valeria Gomes

25 Fevereiro 2009 | 13h00

Olá Mr. Miles,

Veja o que me aconteceu no consulado americano de São Paulo. Cheguei bem cedo para evitar as longas filas e conseguir o visto. Como estava chovendo, tive de comprar um guarda-chuvas. Relutei, no início, pois custava R$20,00. Como chovia forte, porém, não tive muita escolha. Quando entrei para a entrevista pediram-me que deixasse, na entrada, pertences como o celular e o guarda-chuvas. Até aí tudo bem. Mas na saída, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os funcionários confiscaram o meu guarda. Eu e outras pessoas sofremos com esse abuso e, claro, não tivemos com quem discutir. Saímos inconformados e até agora não entendo porque fizeram isso.
Ernesto Marques, por email

Well, my friend, não compreendo o seu inconformismo. Você não tem lido os jornais ou a internet? A crise está brava! Mais do que nunca, os americanos estão procurando, of course, os valores perdidos na imensa crise de crédito em que afundaram todo o planeta. Não me parece, however, que essa decisão tenha partido da assessoria econômica de Obama. Prefiro imaginar que, nos extertores finais de seu mandato, o notável presidente Bush tenha emanado ordens do tipo ” precisamos ganhar dinheiro de todas as maneiras possíveis”. Isso, I presume, inclui as umbrellas. Don’t you think so? Parece irrelevante, mas não é bem assim. Imagine só, my dear Ernesto. Os Estados Unidos da América devem ter, entre embaixadas e consulados, cerca de mil representações espalhadas pelo mundo. Suponhamos que cada uma delas seja visitada, at least, por cinquenta pessoas por dia — o que, convenhamos, é um cálculo modestíssimo. Chegamos, portanto, a 50 mil guarda-chuvas por dia, ou 250 mil guarda-chuvas por semana, ou, ainda, sete milhões e meio por ano. Há que se descontar, of course, os dias e os lugares em que os visitantes não precisem recorrer a guarda-chuvas por razões meramente meteorológicas. Presumamos, therefore, que as representações norte-americanas confisquem apenas três milhões de guarda-chuvas a cada ano. Ao preço pífio de 10 dólares — o custo poderia ser cinquenta vezes maior no caso de um guarda-chuvas Briggs (aqui mencionado na semana passada como o preferido do Príncipe de Gales) — ,a modesta operação de confisco resultaria em trinta milhões de dólares para os caixas de Tio Sam. Você há de me dizer, fellow, que esse valor não representa nada ante a imensidão de dívidas revelada por essa crise. Mas pense bem, Ernst: centenas, talvez milhares de outras pequenas operações quase invisíveis como essa por você relatada, podem estar em andamento.
Perfumes, colônias, barbeadores, isqueiros e canivetes confiscados nos aeroportos de todo o planeta. Tratados internacionais que multiplicam, em muitas vezes, o valor da operação umbrella e de suas similares. Um mar de dinheiro jorrando, silencioso, dos mecanismos burocráticos — seja em nome da segurança, seja em nome da autocracia, ou de Dow Jones. O único inconveniente desse confisco inexplicável é que, o posterior retorno dos produtos ao mercado informal acaba inibindo toda uma cadeia produtiva.
Meu amigo Lon Tsu Xian, fabricante de quinquilharias em Xangai, contou-me, recentemente, que estava sentindo uma forte retração no mercado de guarda-chuvas e atribuiu essa queda às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Poor Xian. Mal sabe ele com quem está competindo…