O museu das mágoas antigas
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O museu das mágoas antigas

Bruna Tiussu

17 Agosto 2011 | 13h50

Bruna Tiussu

Um dia eles foram símbolos de toda a paixão de um casal. Capazes de arrancar risinhos sem-fim e trazer à memória as mais belas passagens (sempre com fundo musical especial). Até que o amor se vai – quase sempre apenas para um dos envolvidos. E, de repente, aqueles objetos essencialmente inocentes se transformam na lembrança física mais próxima da pessoa a ser esquecida.

O que fazer com peças e presentes que só pioram os maus tempos vindos com um coração partido? Há quem põe fogo, junta tudo em um saco e joga no lixo, esconde no fundo de uma gaveta nunca visitada. E há aqueles que ajudam a fortalecer o acervo do Museum of Broken Relationships, em Zagreb, na Croácia. Já são mais de 700 objetos que, reunidos, exprimem toda a gama de emoções e sentimentalismos, sem perder a graça e humor. Para os extremamente românticos, pode parecer de mau gosto. Para mim, a ideia faz parte daquele grupo das mais simples, mas geniais, que eu mesma gostaria de ter tido.

As peças ali expostas convidam a uma viagem semi-voyerista pelas vidas de completos estranhos. Há de tudo um pouco. As triviais pelúcias, coraçõezinhos e peças de roupa (inclua aí um monte de vestidos de noiva e lingeries) estão lá. Ao lado de itens menos convencionais, como um martelo, um duende de jardim e uma prótese de perna. O anonimato é sempre mantido, cada peça é identificada apenas com uma breve descrição (enviada pelo doador), cidade natal e datas de início e término do relacionamento.


Objetos vão dos tradicionais aos mais inesperados. Fotos: Rina Ota/Reuters

Foram os croatas Olinka Vistica e Drazen Grubisic que tiveram a grande iniciativa, em 2005. Com seus próprios relacionamentos indo por água abaixo, coletaram algumas de suas lembranças pessoais e decidiram montar uma pequena mostra, meio que de brincadeira. A ideia decolou, ganhou admiradores e o mundo. Até o ano passado, o museu já visitou em forma de mostras temporárias alguns destinos como a Cidade do Cabo, Istambul, Sarajevo, São Francisco, Toronto e Buenos Aires, sempre arrecadando novas doações.

No dia 21 de maio, o museu foi vencedor de um prêmio durante o European Museum of the Year Award 2011. Levou o  Kenneth Hudson Award com a seguinte menção: é a realização mais incomum, ousada e, talvez, controversa que desafia a percepção comum do papel dos museus na sociedade. Anteontem, dia 15 de agosto (propositalmente ou não, no dia do solteiro), ele desembarcou em Londres, no Tristan Bates Theatre, em Covent Garden. E por lá fica até 4 de setembro.