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O papa e os turistas

Adriana Moreira

19 Julho 2013 | 19h09

Adriana Moreira

Nesta semana, a chegada do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, que será realizada entre os dias 23 e 28 de julho no Rio de Janeiro, dominou os noticiários. Mas, entre tantas reportagens, me chamou a atenção a maneira como os visitantes estrangeiros, vindos especialmente para o evento, seriam recepcionados por aqui. Alguém que mal sabia pronunciar o nome do país queria saber se em Myanmar comia-se carne – ia receber católicos desse país em casa e não queria dar uma gafe. Outro traduziu para o árabe os pontos onde o papa ia passar na capital fluminense. Um grupo foi aguardar os viajantes com cartazes de boas-vindas e outros mimos.

O que me fez pensar: por que não agimos de maneira parecida com todos os turistas estrangeiros que vêm ao Brasil? A exemplo do que fez a prefeitura carioca, que aprovou que os táxis da cidade andassem em bandeira 2 durante o evento, a impressão que tenho é que ainda temos uma necessidade de achacar o “gringo”. Mesmo que esse gringo venha de São Paulo.

Quando fui a Jericoacoara, no ano passado, achei um absurdo cobrarem R$ 10 A HORA o aluguel do guarda-sol. Mais R$ 5 se quisesse a cadeira (R$ 5 cada uma, diga-se). Multiplique isso por uma família de quatro pessoas. Não paguei, obviamente, e só para protestar (a palavra está na moda) estendi minha canga ao lado da última cadeira montada. Se a sombra chegasse em mim, não teria culpa.


Mas os gringos pagaram.

É justo isso? Não acho. Não é preciso um evento como a JMJ para que os visitantes sejam recebidos com carinho e alegria. Podíamos fazer isso sempre, todos os dias, o ano inteiro. Quem visita um país e tem boa impressão dele, quer voltar. Recomenda aos amigos. Escreve no blog, coloca nas redes sociais, faz uma propaganda involuntária e muito bem-vinda – afinal, viajantes naturalmente gastam e movimentam a economia. Não é preciso explorá-los.

Veja: só para se ter uma ideia, durante a Copa das Confederações (que, convenhamos, nem é um evento tão grande assim), os visitantes internacionais gastaram em média R$ 4.854 (incluindo transporte, hospedagem e alimentação) e permaneceram aqui 14 dias, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) encomendada pelo Ministério do Turismo. Ainda segundo o MTur, durante a JMJ, os estrangeiros devem injetar R$ 1,2 bilhão na economia.

Turista não é trouxa. É alguém que se propôs a sair de seu país para conhecer uma cultura diferente da sua – ou fazer negócios, que seja. Que, apesar de todas as agruras dos noticiários sobre o Brasil, achou que valia a pena desembarcar por aqui (e, em alguns casos, até enfrentou um longo processo de visto). E, principalmente, se dispôs a encarar os mais variados problemas de comunicação. Sabemos que há pouquíssimas placas em inglês, mesmo em cidades turísticas. Já me deparei com um turista argentino, em pleno carnaval, tentando pedir informações no Centro de Informações Turísticas de Olinda e ser atendido por uma pessoa que não entendia nem o espanhol, nem o inglês.

A Copa está aí, queiram ou não. E temos uma chance de fazer diferente, de melhorar nosso número de 5 milhões de turistas por ano, que não sai desse patamar há uns 10 anos. Independentemente de questões religiosas, que tal usarmos o exemplo dos voluntários da JMJ? Ao invés de olhar o turista com estranheza, vamos acolhê-lo. Taí uma boa campanha para começarmos: adote um turista. Já imaginou na Copa?