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O que você pode fazer a respeito do banimento de muçulmanos nos EUA de Trump

Mônica Nóbrega

31 Janeiro 2017 | 19h36

Minha amiga da Arábia Saudita em tour de bicicleta em Boston

Minha amiga da Arábia Saudita em tour de bicicleta em Boston

Era minha primeira manhã em Boston e eu estava sozinha. Havia comprado um passeio guiado de bicicleta, um city tour basicão para começar a entender o lugar. Encontrei o grupo no parque Cristopher Columbus, à beira do Canal Principal de Boston, ao lado do Aquário New England. Éramos uns 12 turistas, inclusive um casal muçulmano. A mulher usava um colorido hijab, o véu.

Pouco depois que o passeio começou percebi que a moça não tinha muito domínio da bicicleta ou talvez estivesse nervosa. Atrapalhava-se em momentos cruciais como atravessar a rua e subir calçadas. O marido, lá na frente, colado no guia, não parecia se importar. Comecei a ficar para trás e sugeri que fôssemos juntas. Ela aceitou e passamos as próximas três horas falando das nossas vidas, dos nossos países de origem – eram da Arábia Saudita e estavam em lua de mel –, das viagens que tínhamos feito, dos nossos cursos universitários, de cinema, música, da arquitetura de Boston.


Foi uma conversa idêntica a todas as outras que já tive com mulheres das mais variadas nacionalidades e preferências espirituais em vários lugares do mundo. Com exceção dos raros momentos em que o marido dela chegava perto de nós duas. Ela tinha me pedido antes para que ficássemos caladas quando isso acontecesse. Não discuti, apenas respeitei.

Tenho uma aparência marcadamente latino-americana, traços muito misturados entre o indígena brasileiro e o negro, morena. Não foram poucas as vezes em que, em viagens ao exterior, fui abordada com os temas carnaval, Rio de Janeiro, você sabe sambar?, o pacote completo. É sempre frustrante ser vista como um estereótipo. Tenho certeza de que as mulheres – e os homens – muçulmanos concordam com isso.

Tudo isso para dizer que se você está indignado com o decreto executivo de Donald Trump que barra cidadãos de sete países de maioria muçulmana – Irã, Iraque, Líbia, Síria, Somália, Sudão e Iêmen – de entrarem nos Estados Unidos, é bom saber que há, sim, algo que você possa fazer.

E se não está indignado, saiba que o decreto afeta também os brasileiros. O mesmo documento acaba com a maioria dos poucos benefícios que os turistas do Brasil haviam conquistado na emissão de vistos para os Estados Unidos, como a isenção de entrevista pessoal nos consulados (disponíveis apenas em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Brasília) para adolescentes entre 14 e 16 anos e idosos entre 66 e 79 anos. Nosso colunista Ricardo Freire dá mais detalhes sobre as mudanças aqui.

A ideia central é, ao viajar para qualquer lugar do mundo, nunca endossar ou perpetuar o preconceito. A seguir, algumas ideias. 

Não generalizar. Atos de terrorismo cometidos por extremistas islâmicos são culpa das pessoas que os cometeram, e apenas dessas pessoas. Em Paris, por exemplo, vivem de 200 mil a 300 mil adeptos da fé islâmica, que representam de 10% a 15% da população da cidade. Desconfiar de todos por causa do ataque à casa de shows Bataclan em novembro de 2015, por exemplo, não faz o menor sentido. Aproxime-se dos muçulmanos e de todas as pessoas, faça amizades, converse, ouça. Sempre, em qualquer lugar do mundo.

Respeitar a cultura e os valores do outro. Quanto da ótima conversa com a moça de Boston eu teria perdido se tivesse dado alguma opinião não solicitada sobre a forma como o marido a tratava em plena lua de mel – que sim, me incomodava? Desarmar o espírito, abandonar certezas e escutar o outro sem julgamentos prévios são atitudes que enriquecem a viagem e a vida.

Outro exemplo: antes da visita turística à Grande Mesquita El Fateh, no Bahrein, cumpri a exigência de passar no pequeno vestiário ao lado da recepção para vestir túnica e hijab emprestados. Enquanto me ajudava a acertar a roupa, a atendente, uma moça de 17 anos, foi me contando que seu pai é de origem venezuelana e que gosta muito da América do Sul, que já havia visitado três vezes. Ao prender com muita habilidade e delicadeza o lenço no meu cabelo, disse “você é tão bonita para andar descoberta”. O tom não era de censura ou repreensão, mas de carinho e cuidado. É uma riqueza ter acesso a um olhar tão diverso sobre coisas que nos parecem óbvias.

Manter os ouvidos abertos. Relativizar convicções não significa fechar os olhos às violências e abusos. Ouvintes atentos e genuinamente interessados sabem entender um pedido de socorro. Nesse caso, pergunte como pode ajudar e faça o melhor que puder. Neste vídeo (em inglês) há dicas de quando e como agir.

Não abrir mãos dos seus valores. O islamismo é o alvo da vez, e o presidente dos Estados Unidos, o representante mais histriônico de um pensamento que teme as diferenças. Para estes, quanto mais homogêneo o mundo, melhor. O pânico das diferenças é uma ameaça a todos os humanos – por isso, valorize e reafirme suas origens e sua cultura, esteja você nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do planeta.

Continuar viajando. Ataques terroristas costumam ser seguidos de uma onda de cancelamentos de viagens para o destino. Uma das consequências dos atentados de 2015 em Paris, ao jornal Charlie Hebdo, em janeiro, e à casa de shows Bataclan, em novembro, foi que a capital francesa recebeu 6% menos turistas em 2016 em comparação ao ano anterior, segundo o Escritório de Turismo de Paris.

Posturas como as de Donald Trump podem ter o mesmo efeito. Quer boicotar os Estados Unidos? Boicote os Estados Unidos e vá para outro lugar. Acha que Miami é a oitava maravilha do mundo moderno e não tem nada a ver com isso, justo Miami que tem mais latino do que mar? Tudo bem também.

Só não pare de viajar. Não faça o jogo dos que perpetuam a violência. Trancar-se em casa, com medo dos lugares e, principalmente, das pessoas, não vai tornar a vida mais segura, nem mais justa; só vai torná-la mais pobre.

Oferecer a sua casa. O site de compartilhamento de hospedagens Airbnb reagiu rapidamente ao veto a cidadãos de determinados países nos Estados Unidos. O CEO da empresa, Brian Cheski, disse em sua conta no Twitter que a plataforma ofereceria hospedagem grátis a refugiados e outras pessoas que foram pegas de surpresa com a medida assinada pelo presidente Donald Trump.

A promessa não ficou apenas nos 140 caracteres. Se você já é cadastrado no Airbnb, basta acessar o airbnb.com.br/immigration-support e cadastrar seu imóvel – você pode oferecer um quarto, um quarto compartilhado ou a casa inteira, e avisar por quantos dias e em que período o imóvel está disponível.

“Nós acreditamos que você deveria poder viajar e viver em qualquer comunidade do mundo”, diz Brian Cheski no comunicado enviado para todos os cadastrados no Airbnb. E faz um pedido: “Se você precisa, ou conhece alguém que precisa de acomodação em razão do veto, envie um e-mail para brian.chesky@airbnb.com”.