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O renascer dos piratas

Tania Valeria Gomes

02 Dezembro 2008 | 15h34

Não foram poucos os leitores que escreveram a nosso incansável viajante sobre a Somália e a questão dos novos piratas. Como sempre, mr. Miles não se recusou a abordar o tema, até mesmo porque, segundo suas palavras, “tenho um fraco pelas águas incomensuravelmente cristalinas do nordeste da África, cuja beleza literalmente cega os líderes locais, ao invés de render-lhes prosperidade”.
A seguir, a pergunta da semana:

Prezado mr. Miles: o que o senhor está tem a dizer sobre o renascimento do fenômeno dos piratas na costa da Somália. Isn’t it amazing? — como o senhor mesmo diz.
Marco Aurélio Silviani Pascolle

Well, my friend: suponho que você esteja usando o amazing em sua frase com a ironia de quem viu e leu muitos romances de corsários divertidos e bucaneiros corajosos. Na ponta de uma metralhadora, I presume, o termo terrifying seria mais apropriado, isn’t it?
In fact, Mark, a pirataria é tão antiga quanto o transporte de valores pelo mar. Sua característica foi ter sido sempre tão sangüinolenta quanto rentável. O cinema gosta de construir histórias sobre piratas corteses e justiceiros que, most of the times, estão recuperando valores injustamente tomados por nações imperiais de suas pobres colônias. A temática é absolutamente verdadeira, exceto, of course, pela índole dos bucaneiros.
Quem quer que estivesse no comando de um navio com a famosa bandeira Jolly Roger hasteada (N.da R.: a mais célebre das flâmulas- piratas, com um crânio e duas espadas cruzadas sobre fundo preto) era um assassino. Mesmo que ostentasse o título de Sir, como meu conterrâneo Francis Drake, que foi um corsário, na verdade um pirata oficial, apoiado pelo governo.
Nos últimos anos, as you know, as pessoas passaram a usar o termo pirataria para atividades que têm mais a ver com falsificação, uso indevido, etc. A meu ver, fellow, tiraram a crueldade do termo… ou você acha que um tênis clonado tem o mesmo charme de um homem degolado?
Quanto ao fulcro de sua questão, my friend, temo que estamos diante da velha mistura entre a necessidade com a oportunidade. Conheço Bosaso — a cidade-sede dos piratas somalis — desde quando ela se chamava Bender Qassim e era um porto pobre, mas decente, na costa de um país cercado pelo mar de um lado e pela fome de todos os outros.
À época — hospedei-me no Hotel Juba, if I remember —, a pesca fazia frente às necessidade alimentícias dos 50 mil moradores da cidade. Hoje, segundo leio, as guerras internas multiplicaram por dez a população local.
That’s terrible, isn’t it? Acontece que a geografia obriga todos os navios vindos do Canal de Suez e do Mar Vermelho a passarem pelo Golfo de Aden, bem em frente aos famintos somalis. E se já não há mais transporte de ouro e pedras preciosas, não é dificil imaginar um bando de piratas famintos seqüestrando navios em troca de dinheiro.
Meu velho amigo Mahmud Abdul Muse diz que, pela primeira vez em anos, a Somália mostra sinais de prosperidade. ‘Finalmente descobrimos o que fazer de nossa economia, Miles: vamos ser todos piratas. Yo, ho, ho, uma garrafa de rum’ — exagerou ele, que é muçulmano e não bebe, of course.