As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O temperamento das cidades

Tania Valeria Gomes

25 Março 2009 | 19h23

Nosso extremado viajante está, nesses dias, exultante pelo nascimento de Tito, herdeiro de uma de suas mais queridas afilhadas, a bela e geniosa Natty, a quem ele viu crescer às margens do Lago de Annecy.
A chegada do pequeno delfim fez com que mr. Miles abandonasse uma programada incursão à Caxemira e voasse para Amboise, na França, onde a mãe deu Tito à luz uma noite após ter jantado um memorável spaguetti à carbonara. Convidado pela familia regozijante a segurar o recém-nascido, mr. Miles jura ter visto o menino olhando em seus olhos, a balbuciar, em oito idiomas, a palavra vovô. Ninguém acreditou nele, é claro. Mas, mais tarde, naquela noite, nosso correspondente foi visto sentado às margens do Loire com oito garrafas e uma taça de vinho ao seu lado.
A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: sendo o homem mais viajado do mundo, se pudesse, qual o país e cidade o senhor escolheria para morar com a família, considerando todos os aspectos, como segurança, estabilidade de governo, beleza do lugar, custo de vida, emprego, etc…Koiti Takeushi, por email

Well, my friend: como você sabe, sou um cidadão do mundo. Minha cidade é aquela em que estou. Meus concidadãos são as pessoas que vejo nas ruas, com as quais compartilho um copo e uma conversa, tenham elas a crença que lhes dê conforto e o idioma que lhes dê poesia.
However, Koiti, é de se supor que seres menos errantes do que eu tenham maior afinidade, always, com as cidades onde nasceram ou onde escolheram viver. Eu poderia citar-lhe inúmeros exemplos desta situação, mas basta-me falar de Steve Lockland, que não troca sua sombria Manchester por nenhum lugar no mundo ou Gonzalo Barrios, que não vê, no planeta, cidade mais bela do que sua querida Assunción, no Paraguai.
Atendo-me aos aspectos mencionados em sua correspondência, eu diria, by the way, que segurança é muito mais um estado de espírito do que uma qualidade urbana. Tenho amigos que sentem-se absolutamente tranqüilos vivendo em Cabul, no Afeganistão. Nevertheless, há outros que caminham sempre atentos e assustados mesmo morando na paz de Helsinque. A estabilidade do governo também conta pouco, dear Koiti. Cuba e a Coréia do Norte, for instance, são um primor nesse quesito. Nem por isso, I presume, Havana e Pyongyang são cidades especialmente agradáveis. A beleza do lugar, I agree, conta muito. Mas mesmo essa variável depende claramente de gosto pessoal. Não há metrópole geograficamente mais bela do que o Rio de Janeiro — embora Sidney, Hong Kong, Vancouver e a Cidade do Cabo disputem essa primazia. Mas o que pensará quem prefere o espanto das montanhas?
Custo de vida? Of course, my friend: quem não gostará de viver numa em que tudo é economico? Unfortunately, esse fenômeno está intrinsicamente ligado à pobreza do país. Ou seja: vantagens de um lado, desvantagens de outro. Don’t you agree?
Anyway, Koiti, o assunto que você me propõe é fascinante e polêmico. Como as pessoas, as cidades têm personalidade. Como nas pessoas, as well, o temperamento das cidades combina mais com alguns do que com outros. Minha sugestão, as always, é que você viaje muito. Passe pelas cidades e deixe que elas passsem por você. Irrite-se com algumas delas, apaixone-se por outras. Em algum momento, I’m sure, você descobrirá aquela que ocupou seu coração.