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O triste caminho da razão

Tania Valeria Gomes

29 Abril 2009 | 14h20

O homem mais viajado do mundo comemorou, na semana passada, o octagésimo terceiro aniversário de sua monarca e, como sempre, fez com que ela recebesse um buquê de raras rosas colombianas produzidas na propriedade de seu amigo Don Borquez Acuña de J. Daniels, 2615 metros acima do mar. Na oportunidade, contou à Rainha Elizabeth sobre suas últimas peripécias.
A seguir, a carta da semana:

Mr. Miles: o prefeito de Paris acaba de reduzir o espaço dos célebres cafés da rue Montorgueil. O que o senhor tem a dizer sobre o tema?
Miguel Kostiuk, por email

Well, my friend: a razão pode conduzir os governantes, mas, most of the time, é a falta dela que conduz os viajantes. Há poucos anos, extirparam-nos os legítimos doubledeckers de Londres. Os burocratas, of course, tinham calhamaços de motivos razoáveis para suprimir os ônibus de dois andares de nossa paisagem urbana. A cidade, however, viverá eternamente amputada de uma de suas mais notáveis marcas registradas. É o que se prenuncia, agora, na lovely rue de Montorgueil, em Paris. Tenho todos os motivos para crer que um bando de topógrafos competentes, auxiliado por uma chusma de urbanistas bem-intencionados hajam ceifado a superfície carroçável ocupada por cafés, bistrôs e restaurantes que, há intermináveis décadas, adornam o simpático logradouro parisiense.
Que importa, anyway, se a rue de Montorgueil, do jeito que era na prática e no coração de todos que a conheceram, fosse um dos endereços mais visitados de Paris?
Os tecnocratas, como todos sabemos, sempre têm razão. Haverá, em Istambul, um grupo de trabalho estudando com afinco a substituição do precário e charmosíssimo Grande Bazar por um magnífico shopping center nos arrabaldes da cidade. Don’t you agree? E em Roma, my God, como é que ainda toleram aquelas motonetas trafegando entre fusili e caneloni pelas vielas? Definitivamente é preciso suprimir esse clima de Dolce Vitta que nada acrescenta à Cidade Eterna.
E quanto aqueles canais infernais que atravancam a rotina de Amsterdã? Não resta dúvida de que urge criar uma comissão cuja meta seja canalizá-los, com incontáveis vantagens para a fluidez do trânsito e para o erário público.
A necessidade do silêncio, I presume, deve ser uma excelente razão para que o alcaide de Salzburgo determine, de uma vez por todas, o cancelamento de concertos e demais audições que entopem os ouvidos dos munícipes com acordes de Mozart. Quem sabe não seja uma boa idéia transferí-los para uma porção erma dos Alpes — desde, of course, que o Partido Verde esteja de acordo.
E o café com churros de Madri? Não haverá um órgão público que, após quantificar o excesso de calorias e gorduras saturadas presentes na tradicional iguaria, resolva proibí-los definitivamente?
And so on… que sejam abolidas as práticas anacrônicas como os beefeatears da Torre de Londres, a siesta da Espanha, os tartans escoceses e as gafieiras da Lapa. Que o brave new world cantado por Miranda em a Tempestade de Shakespeare seja um conjunto de normas ajustadas e pertinentes para pessoas que, finally, nunca mais vão querer sair da casa.