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Pecados viajores

Tania Valeria Gomes

14 Outubro 2009 | 12h01

Nosso incansável viajante preparou as malas, escovou os pelos de Trashie, sua inseparável raposa das estepes siberianas e apontou a proa rumo a Honduras, cujos acontecimentos tem acompanhado com divertido interesse. Ao contrário do que costuma fazer, mr. Miles sequer deu-se ao trabalho de verificar a disponibilidade de hospedagem em Tegucigalpa. “Em último caso — informou-nos —, vou direto à Embaixada do Brasil e alí estendo meu sleeping bag“.
A seguir, a correspondência da semana:

Querido Mr. Miles: quais são os pecados capitais que as pessoas cometem quando viajam?
Yvonne Solnik, por email

Well, my dear: é quase inevitável viajar pelo mundo sem cometer um pecadilho involuntário, ao menos once in a while. São tantas as regras não-escritas de etiqueta que é virtualmente impossível dominá-las. Meu bom amigo Sean O’Connor, solerte executivo londrino, esteve em uma reunião de negócios em Jacarta, na Indonésia e, as always, envergou uma de suas belas gravatas Drakes. A reunião foi um fracasso. Os indonésios jamais usam gravatas, nem mesmo em ocasiões formais. Sean ficou literalmente com um nó na garganta.
Mas não se pode culpá-lo, don’t you agree? Em minha modesta opinião, excluindo o grave sacrilégio do desinteresse que, however, já é a própria penitência do viajante que o comete, há outros erros capitais nos quais não se pode incidir. Um deles, que muitos de nós perpetramos com frequencia é o chamado pecado da carne. Be careful, my friends: não deixeis vossas carnes (por mais generosas e bem tratadas que sejam) demasiadamente à mostra, exceto em locais em que esse hábito seja sabidamente bem aceito. Quando houver dúvida, o melhor é estar composto com certo recato. E, by the way, se esse regra lhe parece muito puritana, tenha em mente que dois terços das nações do planeta pensam o contrário.
Fique atento, também, ao pecado da ignorância política. Cada país, democrático ou não, tem um governo instalado e leis em vigor. Informe-se antes sobre o regime praticado no país a que você se destina. Ou você corre o risco de repetir o vexame de meu velho amigo Wernerson Soltenberg, que, ligeiramente embriagado de felicidade, ergueu um brinde aos seus anfitriões em um jantar oficial no Reino de Tonga: ” Viva a República!”, conclamou o convidado. E, of course, só não foi deportado porque os nobres de Tonga têm um ótimo fairplay.
Há outros pecados viajores, menos mortais, mas não menos constrangedores. Jamais fotografe as pessoas sem pedir-lhes seu consentimento. Para muitos povos, é o mesmo que roubar-lhes o espírito. Para outros — and that’s more than enough —, trata-se apenas de pura falta de educação.
Esforce-se para aprender algumas palavras básicas no idioma local. Um “bom dia” ou um “obrigado” em italiano, farsi ou hungaro redimirá, for sure, boa parte de seus pecadilhos não-intencionais. E ainda, frequently, lhe renderá um sorriso.
At last, não importa onde esteja, sempre demonstre respeito pelos hábitos religiosos locais. Aja com reverência e compostura ao entrar em um templo. Mascar chicletes dentro de uma catedral ou de uma mesquita, for instance, pode levá-lo diretamente ao inferno — e, conforme o templo, não será sequer o inferno de sua fé.
Já usar meias sujas ou furadas não pode ser considerado um ato pecaminoso. But, I’ m very sorry to say: se tiver que tirar os sapatos para entrar em alguns desses templos e estiver nessa condição, você talvez se sentisse mais confortável ardendo numa fogueira da Inquisição.