Quando os destinos viciam
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Quando os destinos viciam

Adriana Moreira

03 Dezembro 2013 | 00h21

MR. MILES *


O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO 

Ilustração: Carlinhos Müller

Nosso intrépido viajante está a caminho de Cingapura, com o objetivo de participar da festa de bodas de prata de seu velho amigo Chang Chung Keat, outrora célebre em Trafalgar Square por suas apresentações com malabares. Trashie, a raposa das estepes siberianas, foi especialmente tosada para a ocasião. Presume-se que mr. Miles conte-nos sobre Cingapura em uma de suas próximas colunas.
A seguir, ele discorre sobre a correspondência da semana:
Caro mr. Miles: como executivo de uma grande empresa, viajo muito, mas sempre para cinco ou seis destinos. Sinto-me à vontade nesses lugares. A empresa, porém, fechou a filial de Johannesburgo há uns três anos – e a África saiu do meu roteiro. Tenho enorme vontade em voltar para lá com minha família! A gente se vicia em certos lugares? Yan Gelmer, por e-mail
“Thank you very much for your e-mail, Yan! Sua questão é interessante e tem várias possíveis interpretações. Deixe-me começar, as always, anunciando que jamais viajo a trabalho e minhas considerações devem ser recebidas com a devida humildade. Viajar muitas vezes para os mesmos destinos, coisa que também faço de acordo com preferências pessoais, é, ao meu ver, um prazer redobrado. Se você sente-se em casa em determinada cidade, isso certamente lhe dá a sensação de segurança que os novatos não têm. Ainda mais: eleva-o a uma dimensão de world citizen, pessoa cosmopolita com mais do que uma simples base no planeta.

De certa forma, dear Yan, é uma evolução moderna daqueles lendários navegadores com uma mulher em cada porto – e, for Christ sake, não estou querendo sugerir que você seja um polígamo ou algo do gênero. Anyway, my friend, sempre digo aqui neste espaço que, por mais que se viaje repetidamente a destinos repetidos, eles serão sempre ilustres desconhecidos, revelando aos poucos suas características. Os ventos mudam, as ideias mudam, os administradores públicos mudam – e o mesmo ocorre com as nuvens no céu. Revisitar uma cidade é ter a chance de decifrá-la mais uma vez.

Algumas delas, como Paris, Londres ou Nova York, são escancaradamente exibidas e revelam seus novos encantos a cada viagem. Outras, mais pudicas, como Délhi, Moscou ou São Paulo, transformam-se de dentro para fora. Não é fácil para o viajante entender o que ocorre em suas vísceras semoventes por trás de eternos tapumes. However, quando a descoberta ocorre, ainda que em um pequeno detalhe, ela tem um grande significado. Do you know what I mean?

Well, dear Yan, não me surpreende que você queira voltar a Johannesburgo (e a outras atrações da África do Sul nas quais, I presume, você já esteve). É, de novo, aquela agradável sensação de onipotência que sentimos nos locais que dominamos, sem qualquer prejuízo ao prazer de ampliar o conhecimento. Isso o que você, sabiamente, chamou de vício. Um delicioso vício que não faz, ao que se saiba, qualquer mal à saúde e, se causa dependência, torna-se ainda melhor. Isto é: até que um desses milhares de estudos em andamento nas mais obscuras universidades do planeta informe, for instance, que viajar provoca um envelhecimento precoce das células ou outra bobagem qualquer.

A sua pergunta, my friend, parece revelar um verdadeiro viajante por trás de um bom profissional. I’m sorry to say, mas tenho amigos executivos que viajam muito mas jamais deixam suas escrivaninhas. A paisagem da alma dessas pobres pessoas é a tela do próprio computador. A trilha sonora são as vozes conhecidas que vêm do celular de sempre. E a descoberta ocorre durante a reunião ou a feira para a qual viajaram.

Que pelo menos possam fazer bons negócios – é tudo o que lhes desejo.”

* É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.
ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 
16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS