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Saudades de Erzgebirge

Tania Valeria Gomes

03 Setembro 2009 | 12h43

Nosso eclético viajante foi para Bruxelas onde, segundo ele, “sabe-se lá por quê”, foi convidado a compor o seleto juri de uma competição nacional de cervejas. O certame fê-lo provar, durante três dias, algumas dezenas de amostras distintas provenientes de diversos célebres produtores locais. Com a sua fleugma habitual, mr. Miles atribuiu notas a cada uma delas. Entretanto, dado seu pouco apreço por bebidas fermentadas de baixo teor alcoólico, não esqueceu de levar, na bagagem, um consistente estoque de genuino scotch. Sua correspondência desta semana vem, portanto, da “magnífica Grand-Place”:

Olá, mr. Miles. Em dezembro, meu esposo e eu vamos passar as festas de final de ano na Alemanha, na região de Erzgebirge. Espero um Natal bem diferente do brasileiro mas estou com muito medo do frio… Será que vou congelar? Como fazer turismo no frio?! By the way, antes de chegar na Alemanha faremos uma breve escala (3 dias) em Lisboa. Quais as atrações imperdíveis por lá?
Fernanda Melo Le Bourlegat, por email

What a coincidence, my dear! Tive uma grande amiga, infelizmente já falecida, que viveu na região de Erzgebirge, na fronteira entre a Saxônia germânica e a Boêmia tcheca. Durante a Segunda Guerra, Verena — era esse seu nome —, fez alguns serviços de… how can I say?… municiamento de informações para as forças aliadas na região. Não sei se você sabe, dear Fernanda, aquela área é muito rica em minerais, inclusive urânio. Tinhamos de ficar de olho, do you understand? No final da guerra, fui encarregado de livrá-la dos soviéticos e tive o prazer de trazê-la pessoalmente para Londres. What a nice girl! Foi minha professora de erzgebirgisch, um dialeto local tão impronunciável que, ao fim de algumas aulas, tive uma contratura no genioglosso, o maior dos pares de músculos que movimenta a língua. It was awful, really awuful. Pois foi com Verena, em situação mais romântica, que voltei àquelas lindas montanhas. You’re right, darling: os invernos podem ser impiedosos na região — menos, porém, que nos vizinhos Alpes bávaros, que são muito mais altos. Considere, however, que as mudanças climáticas têm sido muito acentuadas. Não me surpreenderia nem um pouco se o seu Natal em Erzgebirge não tivesse sequer um floco de neve. O que, I’m sorry to say, seria uma pena. A neve, nessa parte da Europa, mainly in Christmas time, é tão bem-vinda quanto o chantilly. Os povoados aguardam-na com caldeirões de glühwein, um condimentado vinho quente que ameniza o frio. Em todas as partes há festas com pirâmides natalinas e scwhibbogen (arcos de madeira com velas, que todos penduram nas janelas), duas famosas criações locais.
Você me pergunta, my dear, sobre como fazer turismo no frio. Só posso lhe dizer que tenha o espírito preparado para ele — além, é claro, de um ótimo sobretudo. As estações do ano, remember, são a jornada que o nosso planeta faz para, como qualquer bom viajante, desfrutar de novos ares. A monotonia do verão perpétuo é um convite à indolência e, ainda que conveniente, equivale ao fastio de ler sempre o mesmo livro, beber sempre o mesmo vinho e jamais ouvir uma nova melodia.
Quanto a Lisboa, darling, você vai sentir-se em casa. A cidade é um encanto, da antiga Alfama ao sóbrio Chiado, das Docas de Santo Amaro ao unbelievable Mosteiro dos Jeronimos. Tenha cuidado apenas com o idioma: como, unfortunately, a reforma ortográfica ainda não atingiu a pronúncia, ao conversar com certos lisboetas você terá certeza de que está ouvindo… erzgebirgisch!