Sinta-se em casa em Baracoa
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Sinta-se em casa em Baracoa

Mônica Nóbrega

24 Março 2009 | 20h02

Dentre as muitas anedotas que ilustram a relação dos cubanos com Baracoa, a mais engraçada diz que seus habitantes quebram cocos com a cabeça. A isolada cidadezinha no extremo leste de Cuba é acusada de ter parado em algum  momento de 1512, ano de sua fundação pelos conquistadores espanhóis, a primeira do país. Um exagero fácil de ser compreendido quando se descobre que, apenas 44 anos atrás, não existia nem acesso por terra até lá. 
Pois a estrada foi construída, substituiu os barcos e se tornou a primeira grande emoção de quem vai a Baracoa. Os viadutos de até 600 metros de altura seguem entre morros e abismos, com o oceano lá embaixo. Tantas são as exclamações que o motorista do Viazul atende ao pedido dos turistas e faz  uma parada para as fotos. 
Se não é verdade que Baracoa parou no tempo, por outro lado conserva um  clima ainda tão descomplicado que é capaz de o turista se sentir, pela primeira vez desde que pisou em Cuba, como gente da família. A cidade tem apenas quatro hotéis. Mas são muitas as casas particulares como a do casal  Yirelsy e Cesar (Calle Mariana Grajales, 9; tel.: (00–53- 21) 643-517). A diária de cerca de 20 pesos conversíveis (R$ 49), variável conforme o período do ano, garante o quarto para duas pessoas e o café com cardápio escolhido pelos hóspedes. E dá direito a brindes: um terraço com vista panorâmica ou um bate-papo nas cadeiras de balanço da sala de estar com os simpáticos anfitriões. 

Calçadão na orla, para descanso a qualquer hora. Fotos Mônica Nóbrega/AE

Calçadão na orla, para descanso a qualquer hora. Fotos Mônica Nóbrega/AE


A área urbana é tão pequena que pode ser toda visitada em uma única tarde a  pé. Não é preciso ter pressa. Horário marcado, só mesmo nos Museus de  Arqueología (Calle Moncada, s/n.º), para ver algumas das cerâmicas mais antigas escavadas no  Caribe, e Municipal (Calle José Martí), instalado no Forte Matachín, uma construção espanhola  do fim do século 18 com acervo formado por relíquias de povos nativos da  região. Ambos funcionam das 8 às 20 horas, de terça-feira a domingo. 
As Ruas Antonio Maceo e José Martí, paralelas ao mar, cortam a cidade de  ponta a ponta, cheias de casinhas coloridas com portas abertas sobre a  calçada. Ao olhar lá dentro, você corre sério risco de ser convidado a  entrar para uma prosa. Estabelecimentos comerciais também ficam nessas ruas,  bem como a Fábrica de Tabaco Manuel Fuentes, em cuja fachada lê-se um solene  “Junto a Fidel e Raúl, mais unidos e vigilantes”. 

Apoio ao governo estampado na fachada da Fàbrica de Tabaco

Apoio ao governo estampado na fachada da Fàbrica de Tabaco

Quando der vontade de descansar os pés, o calçadão à beira-mar está sempre  por perto com a sua mureta generosa e o barulho das ondas nas pedras. 
A Casa da Cultura (Calle Antonio Maceo, 124 ) tem farta programação musical o dia todo. À noite,  instrumentistas se apresentam na Casa da Trova Victoríno Rodrigues (Calle Antonio Maceo, 149 ), a  principal balada de Baracoa. O lugar fecha lá pelas 23 horas, mas, se o  público estiver animado de verdade, os músicos esticam a noitada nos bancos  da praça em frente, a da catedral.

RANCHO TOA

Negrím pedala valentemente o bicitáxi por 10 acidentados quilômetros. Apesar  do esforço, fala sem parar. Conta histórias e mostra pontos de interesse no  trajeto: a fábrica de chocolates “inaugurada por El Che em abril de 1963”, e  El Yunque, a montanha-símbolo da cidade, com 575 metros e cume plano. Aos 50  anos, Eugénio Lopez Martínes, ou Negrím, tem corpo de um maratonista de 30 e  rosto de um homem de 70. 
Antes de sairmos da cidade, ele faz questão de parar em sua própria casa e de apresentar sua família: mulher, filho, filha e neta. Ganho água de coco colhido no quintal e seguimos para o Rancho Toa (Estrada Baracoa-Holguín), na foz do rio de mesmo nome, o mais extenso de Cuba, com 126 quilômetros.
Natureza e silêncio são o que Baracoa oferece de melhor ao viajante. Ainda  fora do circuito turístico mais conhecido, mantém suas belezas preservadas e  praias quase desertas. 
No Rancho Toa, um passeio de 15 minutos de canoa leva a uma praia onde há  apenas uma cabana feita com pedaços de madeira e palha. Pescadores constroem  abrigos afim de acampar dias sem voltar à cidade. O mar é limpíssimo e  gelado. 
Na volta, sobre uma ponte, Negrím me mostra o ponto do Rio Toa onde as  famílias locais fazem piqueniques. “Na sua próxima visita, traga a família”,  recomenda. “Então compraremos cervejas e passaremos um domingo nesse rio.”