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Sobre lugares secretos

Tania Valeria Gomes

11 Setembro 2009 | 14h24

A leitora Marta Corazza, que se declara leitora assídua de mr. Miles, sugere que nosso correspondente tenha sido substituido por “um clone menos afiado desde a publicação de suas excelentes colunas sobre a xenofobia na Itália de Berlusconi”. Diz mais dona Marta: “Dono de agudeza de espírito, classe e elegância indiscutíveis, anda escrevendo de maneira sutilmente mais rude e simplória”, aventando, nas entrelinhas, a hipótese de que nosso grande viajante tenha sido expurgado da seleta lista de articulistas deste diário porque ousou entrar em tema polêmico, que teria desagradado a poderosos interesses da Itália e de sua vasta comunidade de descendentes brasileiros.
Mr. Miles, agradecido pelos elogios, manda dizer que estranha e lamenta ter parecido ” rude ou simplório” em qualquer de seus artigos recentes, mas garante que “não fui clonado, abduzido ou cooptado por quem quer que seja — e, se isso ocorreu, I’m very sorry, but I didn’t take notice. Minha querida Trashie continua me fazendo festa como se eu fosse eu mesmo e sigo irredutível em minha decisão de não voltar à Itália enquanto houver leis que incentivem a caça aos imigrantes”. Nosso incansável correspondente promete à leitora “anyway“, que vai ficar atento à possibilidade de, em suas próximas viagens, topar com outro mr. Miles, na expectativa ardorosa de que aquele seja a cópia, jamais ele próprio.
A seguir a correspondência da semana:

O homem mais viajado do mundo nos daria o prazer de revelar alguns lugares que estão entre seus melhores segredos?
Orlando Cury Neto, por email

Well, my friend, a sua questão esbarra em um problema original. Segredos, quando compartilhados, não são mais segredos. Aren’t they? Ainda assim, eu compreendo a sua pergunta. As publicações de turismo têm o estranho hábito de revelar seus best kept secrets com surpreendente frequência. Praias secretas, cidades secretas, restaurantes secretos, montanhas secretas. Os agentes da CIA, do MI5 e do Mossad devem andar em polvorosa com tantas confidências reveladas, don’t you agree?
Mas, na verdade, dear Orlando, costumamos chamar de lugares secretos aqueles que, de acordo com nossas preferências pessoais, são extremamente agradáveis e ainda não atraem multidões. Uma praia com ondas bem formadas pode ser um segredo entre poucos surfistas — mas, as you know, não terá o sabor de uma descoberta para quem prefere, por exemplo, pescar trutas. Assim como discretas reservas de birdwatching têm grande significado para mim, mas, com quase toda a certeza, serão uma revelação que o desapontará. Am I right?
Ouso afirmar que segredos revelados a granel circulação são apenas informações banais. O bom segredo, fellow, é aquele que descobrimos ou, at least, temos a ilusão de descobrir. Ele envolve a jornada, o desvio, a ventura de explorar trilhas não mencionadas e a curiosidade de procurar o que há do outro lado da montanha. Dele jamais se tem certezas, apenas indícios. O relato de um camponês, a lembrança de um velho aldeão, o seu próprio instinto. E então, suddenly, você o descobre. Um lago que, ao poente, adquire tons purpúreos. Um mirante de onde a paisagem ganha novos contornos. Um segredo que será seu, como um tesouro a ser compartilhado apenas por aqueles a quem você quiser agradar.
Esse vasto planeta, my friend, é um grande empório de tesouros bem guardados. Pack your luggage e encontre os seus.