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Sobre o ato de viajar solitário

Tania Valeria Gomes

02 Outubro 2009 | 18h22

Nosso impetuoso viajante percorreu, de bicicleta, uma extensa distância nas trilhas à beira do fiorde de Hardanger, na Noruega, colhendo, no pé, as saborosas maçãs que vicejam nos arredores da cidade de Lofthus, desfrutando da visão dos imensos penhascos que cercam aquela estreita “língua de mar” e passando sob uma infinidade de arco-iris que se formam, com constância, na região. Convalescendo do lamentável (em suas palavras) pifão de aquavit que o acometeu no casamento de Peer e Kaila, mr. Miles inspirou-se na bravura de Roald Amundsen para encarar a empreitada. Mas não tardou a envergonhar-se de seu cansaço inicial ao constatar que centenas de infantes noruegueses de cabelos branquinhos (“crianças idosas”, segundo as palavras do impagável Rick Rollo, que o acompanhou nas pedaladas), percorriam o mesmo trajeto com enorme facilidade. A seguir, a pergunta da semana:

Não sei se culpo minha “imperícia relacional”, mas tenho dificuldades para conhecer gente quando viajo, o que anda me desmotivando a sair daqui. O que o senhor acha sobre o ato de viajar solitário?
Célio Gurfinkel Marques de Godoy, por email

Well, my friend: confesso que são limitados os meus conhecimentos de psicologia, mas atrevo-me a supor que sua “imperícia relacional” — seja lá o que isso signifique —, não se manifeste apenas no ato de viajar. Pelo simples caminho da lógica, therefore, concluo que, na Noruega, no México, em Botsuana ou em sua própria cidade, o problema persistirá inalterado. Pela lei das probabilidades, however, quanto maior e mais variado for o número de pessoas a que você se expuser, melhores serão suas chances de encontrar alguém que descubra nessa sua imperícia um charming appeal. Em outras palavras: qualquer viagem que você fizer pode lhe reservar uma atração turística inesperada. Don’t you agree?
Sou, as you know, um praticante do ato de viajar solitário sobre o qual você me pergunta. Encontro imensa alegria em caminhar sem destino e observar com atenção. Quase sempre acabo conhecendo pessoas por este simples motivo. Observo, surpreendo-me e, of course, pergunto.
Foi desta forma que fiz tantos amigos ao redor do mundo. Perguntando, interessando-me. Sempre, however, com curiosidade genuina e senso de oportunidade.
Envergonho-me de pensar na possibilidade de ser invasivo. Portanto apresento-me com gentileza, manifesto minha curiosidade e, usually, obtenho uma resposta.
Suponho que muitas das pessoas que, mais tarde, tornaram-se good fellows, dirigiram-me um primeiro olhar ligeiramente irônico, incomodadas, perhaps, pelos meus modos e trajes britânicos. I don’t blame them. Se um hindu entrasse em um pub londrino usando um traje tradicional Mailooga, ele também causaria certo estranhamento inicial, I presume.É claro, my good Célio, que também topo com gente mal-educada em minhas jornadas. Mas, como diria minha saudosa tia Antonine, “quem precisa deles?”.
Faça as malas, fellow e viaje porque novos ares e lugares deslumbrantes são sempre uma boa companhia. E, just in case, para evitar o agravamento de sua “imperícia relacional” deixe a França e a Argentina para uma segunda jornada. I’m sure that you know what I mean.