Sua viagem é sempre exclusiva
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Sua viagem é sempre exclusiva

Mônica Nóbrega

14 Junho 2010 | 15h43

Entrei em um café quase vazio em uma ruazinha atrás da Catedral de St. Stephan, no centro de Viena, para fugir da chuva gelada que dominava a tarde. Bastaram as primeiras palavras trocadas com meu companheiro de viagem para o proprietário do lugar identificar o idioma que falávamos e, animado, iniciar uma conversa. Friedrich Franz Joseph, austríaco na casa dos 60 anos, declarou sua admiração pelo Brasil e passou a narrar suas aventuras como viajante na juventude, que incluíram seis meses em terras brasileiras.

Como bom personagem inesperado de viagem, Friedrich mudou o rumo do nosso dia. Ao deixarmos o Cafe Porta, o mau humor por causa do clima havia desaparecido. E tínhamos em mãos uma lista de excelentes sugestões, não aquelas listadas pela pesquisa prévia, mas opções suficientes para tornar divertido o dia que a chuva parecia ter condenado ao fracasso.

Outra surpresa assim, feliz, me alcançou em Florianópolis. Minha permanência na capital catarinense, a trabalho, seria de apenas 24 horas. Ao chegar ao hotel, no fim da manhã, fui avisada de que a entrevista agendada para o começo da tarde havia sido remarcada para 19 horas. Cheia de fome, decidi ir almoçar no shopping ao lado enquanto pensava no que fazer com a tarde inteira livre. Sem pretensões, entrei em um restaurante por quilo.

Vera, cujo sobrenome, infelizmente, não me recordo, puxou conversa já na fila. Dividimos a mesa e aproveitei para perguntar como poderia chegar à Praia Mole. Ela me alertou de que a corrida de táxi até lá sairia cara. No fim da refeição, se ofereceu para me levar a um passeio pela cidade. Precisávamos apenas passar em sua loja, ao lado, para que ela deixasse duas ou três ordens com as funcionárias. Intuitivamente, aceitei o convite.


Foi uma tarde mais que agradável entre praias, a Lagoa da Conceição e o Mercado Municipal. No fim do passeio, ao agradecer o tempo que ela havia me dispensado, ouvi de Vera a afirmação de que fazia aquilo porque tinha uma filha da minha idade morando fora do País. E que adoraria que alguém fizesse pela moça o que ela havia acabado de fazer por mim.

Minha ida à abadia do Monte Saint-Michel, segundo monumento mais visitado da França, também teve seu momento singular. Depois de circular pelos salões e claustros erguidos ao longo de 11 séculos guiado pelo Padre André, que mora no local, meu grupo de quatro pessoas foi convidado a conhecer o que considero, sem medo de ser injusta com todas as outras belezas do lugar, o coração da abadia. Bastou entrar na capela Notre Dame Sous Terre para sentir, lá dentro, uma energia diferente, indescritível mesmo. A ponto de me fazer propor ao grupo dois minutos de silêncio, para que cada um pudesse absorver da forma como achasse melhor as sensações transmitidas por toda a história impregnada nas paredes do século 10, nas colunas e abóbadas erguidas à moda dos romanos, no oratório simples e eloquente.

Capela Notre Dame Sous Terre, na abadia do Monte Saint-Michel, na França. Foto Mônica Nóbrega/AE

Capela Notre Dame Sous Terre, na abadia do Monte Saint-Michel, na França. Foto Mônica Nóbrega/AE

Padre André contou que vai à pequena capela quando sente necessidade de meditar, renovar forças. Notre Dame Sous Terre não está aberta aos turistas. Apenas os 12 religiosos que moram atualmente na abadia têm acesso irrestrito a ela – e, eventualmente, seus convidados, como foi o caso naquele dia. Por isso, relutei durante bastante tempo em narrar a visita, no blog ou nas edições impressas do Viagem. Fui convencida por uma das companheiras de viagem, a jornalista Liane Alves, com o argumento de que “alguns presentes são pessoais”.

Foi o que ocorreu nessa visita. Estou certa de que Padre André nos levou à capela porque notou nosso interesse genuíno por tudo o que nos mostrava. O que, acredito, só prova que, mesmo em tempos de internet colaborativa, quando nenhum destino parece realmente desconhecido, não existe guia, reportagem ou blog capaz de nos contar dos Friedrichs, Veras e Padres Andrés que surgirão na jornada de cada um, para fazê-la única.

E você, lembra de algum passeio, personagem ou descoberta inesperada que marcou uma viagem?